Este texto é longo e fala sobre ter um canal no Youtube. Vou lhe dar uma cacetada de motivos para não ter um e outros tantos para ter. Daí você decide, já que a vida é sua. Antes de mais nada, veja esse vídeo do meu “newsfluencer” preferido:
Viu? beleza, agora vamos ao meu textículo, que é baseado na pesquisa mencionada aí…
Se há algo capaz de curar rapidamente a sua doce e delirante fantasia de mandar o chefe à merda, comprar uma ring light e viver de YouTube, esse remédio atende pelo nome de “pesquisa acadêmica”.
Um bando de pesquisadores do Instituto de Economia da Unicamp (abençoadas sejam suas almas analíticas) resolveu olhar para o abismo. Eles rastrearam 895 canais brasileiros que, lá no longínquo ano de 2018, ostentavam o crachá VIP de “mais de 50 mil inscritos”. Oito anos depois, o cenário parecia o fim de uma festa open bar às cinco da manhã: um cemitério de sonhos e delírios. Metade já havia batido as botas digitais.
Mas os números ficam realmente sombrios quando você olha para o bolso dos sobreviventes. Considerando todo o grupo, 72% estavam tirando menos de um salário mínimo por mês. Você leu certo. Seria mais lucrativo vender água no semáforo. Na outra ponta do cassino, contudo, a casa sorria para os tubarões: os 10 canais no topo da cadeia alimentar sugavam uma média absurda de 343 salários mínimos mensais.
Ou seja, existe muito dinheiro no YouTube, querido leitor. O charme diabólico da coisa é que ele é distribuído com a mesma justiça de uma roleta viciada em Las Vegas.
O Novo Futebol
A pesquisa joga sal na ferida com um dado ainda mais cagado: três em cada quatro jovens hoje dariam um rim para ser influenciadores. A plataforma é o novo campo de terra batida do futebol brasileiro, a promessa de que, com algum suor e carisma, você escapa da mediocridade da vida assalariada.
É aqui que evoco o nome do velho demônio Nassim Nicholas Taleb, que vivo lendo e relendo, metendo suas ideias em qualquer troço. Em Arriscando a Própria Pele (Skin in the Game), por exemplo, Taleb dispara contra as assimetrias cruéis da vida moderna: os arranjos sádicos onde um idiota toma o risco e um engravatado colhe os louros.
Você entra em transe maníaco. Torra o limite do cartão numa câmera 4K, sangra pelos olhos editando no Premiere, aprende os arcanos do SEO, sacrifica seus finais de semana e lança sua obra-prima no éter. Quinze horas de trabalho, para conseguir, o quê? Umas 20 visualizações? Umas 50? Ok, umas cento e poucas? (Sendo que umas 10 são da sua mãe, ahhaha).
O prejuízo (financeiro, de tempo e de sanidade mental) é inteiramente, exclusivamente, totalmente, seu. Mas e o YouTube? Ele não dá a mínima. Para o algoritmo, o seu fracasso é estatisticamente irrelevante. Existem milhares de outros lunáticos subindo vídeos no exato mesmo segundo. Alguém vai estourar, a plataforma vai lucrar com os anúncios, e a roda continua girando. Isso é o que o menino Taleb define como Antifrágil.
O ecossistema da plataforma não apenas suporta o caos, ele se alimenta do sangue, do suor e dos cadáveres de milhões de criadores fracassados. É uma gigantesca, implacável máquina de terceirização de risco. O YouTube é de titânio. Você, infelizmente, é de vidro.
Tome aqui a minha Estratégia da Barata Sobrevivente
Mas não precisamos nos atirar da ponte… Ainda.
A própria pesquisa nos apresenta “Paulo”, um professor de 58 anos que faz vídeos sobre futebol. Ele passa 15 horas na produção, mas o truque de mestre é que ele não está rezando para o altar do AdSense. O canal dele é, na real, uma vitrine brilhante na beira de uma rodovia movimentada (eu tô me segurando pra não falar puteiro). Ou seja, fatura com diversos outros itens externos.
Apostar a escritura da casa num estúdio de gravação na esperança de que um algoritmo caprichoso sorria para você não é “espírito empreendedor”. É só um desejo inconsciente de falência, vontade absurdo morrer na praia, diria Freud. Porque a verdadeira abordagem antifrágil, meu amigo, é ser a barata que sobrevive à explosão nuclear:
- Jogue moedas, não notas de cem: Use o celular que está no seu bolso.
- Custo fixo de mendigo: Não gaste um centavo a mais do que o necessário.
- A metralhadora de testes: Faça dez apostas baratas e bizarras em vez de uma megaprodução hollywoodiana que vai destruir seu casamento.
- Deixe a roleta girar: Produza 20 vídeos. Dezenove vão afundar no pântano do esquecimento. Mas um… vai atingir 300 mil pessoas. Ou não.
Esse único vídeo não é para te dar trocados do Google, mas pescar clientes, roubar contatos para sua newsletter, vender sua consultoria, empurrar seu livro, impressionar o/a moreno/a, sei lá, fazer amigos, cara. Não conte com esse dinheiro. Não conte com plataforma. Conte com a diversão, com a piada de que não vai dar certo.
Se amanhã o YouTube mudar as regras e decidir que o seu formato é lixo, você não está na rua da amargura. Porque você usou a máquina deles para construir o seu próprio feudo: sua lista de e-mails, sua reputação, seu produto, a atenção do/a moreno/a. Você transformou uma aposta caótica em ativos palpáveis.
Tenha pele no jogo. Sem sangrar um pouco, você não sai do lugar. Mas, pelo amor de Deus, não enfie o corpo inteiro no moedor de carne. O sistema não vai sentir a sua falta quando você for descartado. Use a máquina, e não o contrário.
Só existe uma única estratégia para quem vai pisar nesse pântano iluminado por ring lights: Mire na Lua para acertar no Urubu.
Ok, confesso que essa foi uma paródia demasiadamente pessimista. Então tá, vamos reescrever isso e jogar uma pitada de esperança em seu coraçãozinho arruinado: Mire na Lua. Se errar, acertará as estrelas!
Certíssima. Tem que levar como satisfação pessoal. E o meu a resposta é simples: procrastinação! Mas eu vou voltar.
Falando nisso, Daniel, porque tu não continua com teu canal? hahaha
Eu curto o meu canalzinho minúsculo ❤ Levo na boa e tenho trocas bem legais com as pessoas por lá. Pra MIM isso basta.
Mas não é mentira nada disso que tu falou.
Putz, esqueci de me identificar no outro comentário kkk
Acho que láááááááááááááá no iniciiiiiiiiiinho dos anos 2000, antes mesmo do “sonho” do YouTuber existir, rolou o bom e velho papo de “tem lugar pra todo mundo na internet”. Em partes é verdade, né, tem mesmo como todas as pessoas terem onde se expressar, falar, publicar, etc, mas a gente vive no sistema capitalista, né? Não tem lugar na internet, e nem fora dela, para a maioria exorbitante ter grana e “relevância” no que faz, simplesmente porque o sistema não permite…
Dito isso, cá estou, beirando os 23 anos produzindo conteúdo pra internet, sem dinheiro pra colocar todas as contas do mês em dia, mas seguindo em frente!
Pois é, Luly.
Tem que ser assim mesmo.
E na real, esse texto foi para mim mesmo, porque vou voltar a produzir vídeos, mas quero estar super internalizado, super consciente que é algo para satisfazer o meu cérebro e que não vou ter retorno com isso.
Continuemos apesar dos pesares!