Hoje é Dia dos Pais. E eu não tive pai. Não, ele não morreu quando eu era criança ou adolescente. Também não sou fruto de uma experiência científica bem-sucedida de autofecundação. Quando eu estava prestes a completar um ano, numa manhã de domingo qualquer de 1979, meu pai simplesmente deu no pé. Poeta e bon vivant, pulsava nele aquilo que chamava de “espírito livre”.
Foi embora deixando duas heranças que definiriam boa parte da minha vida: uma ausência estranha e sem nome, cujo lugar eu nem sabia localizar, e uma dívida enorme para minha mãe. Dívidas afetivas e financeiras, pagas por quem ficou.
Aprendi a resistir muito cedo. Cresci ignorando aquela falta, como se existisse um cômodo trancado dentro da minha própria casa e que eu nunca tinha acesso. Assim, datas como esta não significavam nada para mim.
No ano passado, soube que ele havia morrido, abandonado e sozinho. Também não senti absolutamente nada. E cheguei a me orgulhar disso. A vida, pensei, apenas lhe devolvera aquilo que você ofereceu.
Nunca planejei ter filhos. Mas tive. E, quando meu filho nasceu, soube exatamente o que aquele menino esperto e muitíssimo vivo esperava de um pai. Eu sabia porque também havia sido um menino esperto e muitíssimo vivo, mas assolado e preenchido por faltas. Agi no ponto certo. Fui e continuo sendo o que ele esperava. É um barato!
Dizem que interrompi um ciclo, quebrei uma corrente. Mas nem sei se é sobre isso. Apenas senti uma vontade imensa de amar, abraçar e projetar meu EU garoto nesse MEU garoto. Pegá-lo no colo, juntar nossos peitos, sentir a batida um do outro e sincronizar esses nossos corações peludos.
O Dia dos Pais é muito mais sobre a felicidade dos filhos do que sobre a dos pais. E falem o que quiserem de mim, mas eu sou bom. Porque o amor me tocou tão fundo que costurou, por dentro, tudo o que a ausência havia deixado aberto.
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Daí, hoje, o ator Michel Melamed, que prezo muito, publicou em sua conta do Instagram, esse texto respingado de saudades e uma ternura crua, porque o pai dele também tinha lá seus defeitos. Mas ao menos estava ao lado do filho. E que inveja, que inveja…
Meu pai era um menino perdido nos corredores de um homem. Quando finalmente anunciaram nos alto-falantes, já se encontrava vazio, fechado. Teve que dormir ao relento (de si).
Meu pai foi minha primeira paixão. E também o meu primeiro pé na bunda. Tudo bem, não era pra ser. Tem quem queira… Torço sinceramente para que encontre um filho que o faça feliz.
Meu pai era um homem cheio de ideias, o que o levou à obesidade.
Eu queria ter sido um pai melhor pra ele, assim ele teria sido um pai melhor para o pai dele, e, assim, sucessivamente, até completarmos uma volta de vantagem e eu virar de repente dando um susto no meu filho sendo pai dele.
Meu nariz é meu pai, minha caspa é meu pai, meu pneuzinho é meu pai e a maior herança que meu pai me deixou foi não ter amigos.
Meu pai morreu dizendo “dinheiro é amor” e ele estava completamente falido. Quando reconheci o corpo, beijei sua testa e me surpreendi como estava gelado — lembrei que a coisa que ele mais gostava no mundo era de sorvete.
Eu sei que no fundo ele me amava (no fundo falso). Assim como eu amava ele no raso (onde ainda dava pé).
Caiu um cisco no meu coração.
Vida é um sopro. Com saliva. Na cara.