Pedaços de tempo, lapsos de sentido, memórias pixeladas. Diário visual de um mundo em fragmentos.
13 a 19/7/26
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Todos viajaram de férias. Tiveram a sorte de trocar esse frio de cimento e pessoas por algo mais quente e agradável. Eu fiquei. Sigo sozinho na mesma rotina, com uma saudade intensa de quem levou consigo um pouco do meu mundo.
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É preciso ser paranoico e absolutamente obsessivo com os próprios objetivos. Pensar neles quando ninguém mais está pensando, enxergar sinais onde os outros veem coincidências, desconfiar do conforto e voltar à mesma ideia até que ela finalmente adquira forma. O mundo está cheio de pessoas equilibradas desistindo educadamente. Gente sensata demais para insistir, ocupada demais para tentar outra vez, preocupada demais com a opinião de quem nunca construiu nada. Não falo de destruir a saúde ou abandonar a vida. Falo de uma obsessão lúcida: proteger aquilo que importa da preguiça, da dispersão e do cinismo alheio. Quase tudo que parece exagero durante o processo recebe outro nome quando dá certo: convicção.
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Hora do almoço. Lá vou eu andar pelo centro com Milton Banana Trio como trilha sonora. Baques quebrados, viradas rápidas, o prato marcando pequenos clarões no meio do ruído. Os passos encontram a bateria; os semáforos parecem obedecer ao compasso; até a pressa dos outros ganha algum balanço. Milton Banana foi um dos bateristas fundamentais da bossa nova, tocou com João Gilberto e participou de discos históricos como Chega de Saudade e Getz/Gilberto. Sua bateria não se limita a acompanhar: desloca o ritmo, brinca com os vazios e faz o samba caber inteiro num gesto contido. Por alguns minutos, o centro deixa de ser apenas buzina, concreto e gente atrasada. Tudo entra em sincronia. A cidade não fica menos caótica; apenas encontra a bateria certa para o seu caos. Sábado vou atravessar a cidade para pegar uma cópia original de 68.
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A discussão sobre o que escrever num blog, o que revelar e o que guardar, para mim, já terminou faz tempo. Também já me cansei de explicar que cada pessoa é livre para pintar a própria vida com as cores que quiser, as luminosas e as sombrias. Todas valem.
A graça está justamente no pequeno. Na xícara esquecida sobre a mesa, na música escolhida para a hora do almoço, no rosto visto por poucos segundos, numa saudade que muda a temperatura da casa. O comum, quando observado com atenção, perde a modéstia e mostra que nunca foi tão comum assim.
Por mais que eu me derrame nestas páginas, ninguém conseguirá me conhecer por inteiro. Escrever também é editar: escolho o enquadramento, corto as bordas, aumento a luz de algumas lembranças e deixo outras fora de campo. Se quiser, posso ser apenas um personagem, uma versão de mim construída com frases, silêncios e pequenos truques de iluminação.
Já não me interessa corresponder ao que esperam de mim. Não sei ser agradável por método, tampouco aprenderia a me transformar em alguém “legal para os infernos” apenas para conquistar simpatia. Não significa que eu não queira ser querido. Quero, como quase todo mundo. Só não consigo fazer disso uma profissão.
Sei que sou bom. Isso posso garantir. E me basta.
O prazer de escrever sobre aquilo que faço, penso, sinto e toco é quase fisiológico. Algo entre respirar e coçar uma parte da alma que eu não alcançaria de outro modo. Escrevo para registrar as pequenas provas de que estive aqui: vi aquilo, ouvi aquela música, perdi alguma coisa, desejei outra. Por alguns minutos, o mundo teve exatamente esta aparência.
O dia deixa outros rastros, e você precisa ser esperto o suficiente para tirar dele as joias, a grande beleza. A luz que ele deixou, o ruído, o peso, a delicadeza inesperada. E quanto melhor contamos essas histórias simples, mais evidente se torna uma verdade que a rotina vive tentando esconder: estar vivo é um acontecimento fantástico.
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Meu cérebro é duplo. Metade clássico, metade moderno. Metade John Coltrane, metade Aphex Twin. De um lado, o sopro quente do saxofone procurando uma saída dentro da harmonia; do outro, máquinas produzindo ruídos que parecem mensagens enviadas por um futuro bizarro e desconfotável.
Durante uma semana, quero piano, contrabaixo e bateria ocupando uma sala imaginária. Na seguinte, preciso de batidas tortas, frequências estranhas e melodias que surgem como lembranças de algo que nunca aconteceu. Parece contradição, mas não é. Coltrane e Aphex Twin falam com a mesma parte de mim: o interesse pelo instante em que a ordem começa a se fragmentar e alguma coisa inesperada aparece.
É uma espécie de loucura organizada. Coltrane improvisa sobre uma estrutura; Aphex Twin constrói estruturas que parecem improvisadas. Ambos transformam a inquietação em uma linguagem clara e estruturada. Liberdade dentro do compasso e invenções de compassos.
Psicologicamente, talvez eu funcione desse mesmo modo. Preciso de alguma estrutura para não me perder, mas, quando ela se torna previsível demais, começo a procurar uma fresta. A repetição me acalma e me sufoca quase na mesma medida. Quero reconhecer o caminho, mas também preciso encontrar nele alguma coisa que não estava prevista no mapa.
Sou atraído pelo movimento: desvio, risco, reação. Gosto da inteligência que acontece em tempo real, quando não há resposta pronta e é preciso inventar uma. O improviso me parece mais honesto.
Não gosto de ensaiar quem serei, preparar cada frase ou calcular todos os gestos. Prefiro reagir ao que acontece, como se viver fosse entrar numa música já iniciada e descobrir o tom enquanto toco. Isso me dá agilidade, mas tem um preço. Nem toda situação aceita um solo. Algumas exigem repetição, paciência e uma disciplina pouco glamourosa de aprender a música antes de reinventá-la e fazer experimentações.
Então, o que fazer? Deixar de improvisar? Seria como pedir ao jazz que dispensasse o risco ou à música eletrônica que desligasse os sequencers e sintetizadores. Preciso aprender a diferença entre a liberdade e o despreparo. Ensaiar, sim, mas não no sentido de controlar o que acontecerá, mas para ter mais recursos quando o imprevisto chegar.
Sempre tentando fazer do acaso uma linguagem, uma música que não precise terminar exatamente como começou.
A Love Supreme…
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Uma pessoa próxima falando comigo. Um odor terrível e improvável: batom de morango e nicotina. Doce demais para ser inocente, amargo demais para ser perfume. Uma mistura de adolescência antiga, cinzeiro de bar e beijo dado às pressas.
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Luis Fernando Verissimo — O Filme
Termino com a estranha sensação de que esqueci alguma coisa em Porto Alegre. Parece até qie esqueci um objeto, uma roupa no armário ou um livro emprestado. Esqueci uma parte de mim, e só percebo sua ausência quando a cidade reaparece na tela.
Porto Alegre ainda guarda uma versão minha que circulava sob outro céu, suportava aquele frio particular e aprendia a ouvir o silêncio entre uma frase e outra. Eu morava num bairro muitíssimo silencioso e com nome peculiar: Tristeza!
Enfim, eu amo Verissimo. Ele tinha uma inteligência sem ostentação, uma graça que chegava em voz baixa, um olhar capaz de perceber o absurdo escondido dentro do cotidiano. Aprendo e copio ele descaradamente. E por isso mesmo que o documentário me tocou. Eu não estava vendo apenas a história de um escritor. Também estava revendo uma cidade que, durante algum tempo, também escreveu em mim.
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No sábado, fui até o Piqueri buscar um disco do Milton Banana Trio na Celsom Discos. A viagem (sim, é 1h30m, duas baldeações de metrô, um trem em sentido Jundiaí e 16 minutos de caminhada!) tinha um objetivo simples: pegar o LP, conversar um pouco e voltar para casa. Mas certas compras acabam trazendo mais histórias do que música.
Celso é um daqueles sujeitos que transformam uma loja em lugar de encontro. Gentil, bem-humorado e cercado por discos, perdeu a visão aos 35 anos, mas desenvolveu uma relação impressionante com o próprio acervo. Passa os dedos pela superfície do vinil e percebe marcas, riscos e sinais de desgaste. Pelo toque, consegue avaliar se o disco está bem conservado. Também reconhece muitos artistas e bandas apenas ao manusear as capas.
É bem bonito isso. Eu fui até lá procurar um som e encontrei outra maneira de enxergar a música. Para mim, aquele objeto era a capa, o título, a fotografia e o vinil girando no toca-discos. Para Celso, é também o peso, o relevo, as bordas, a disposição das coisas e a lembrança acumulada nos dedos.
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Acordei cedo e fui à feira perto de casa comprar queijo, bananas e mexericas. No caminho, encontrei Seu C., companheiro das aulas de boxe. Ele estava com a esposa, que segurava algumas compras enquanto descansava numa mureta. O câncer avançou, e seu corpo já não era o mesmo que eu conhecia. Estava muito magro. Tinha saído porque queria tomar um pouco de ar, sentir a manhã e caminhar até a feira.
Desde 2024 voltávamos juntos das aulas. Eram dez horas da manhã e comentávamos, com uma alegria quase infantil, o privilégio de poder treinar naquele horário e depois seguir para o trabalho. Eram conversas leves e engraçadas.
Hoje, seus olhos estavam marejados. Havia neles um cansaço que eu nunca tinha visto, como se até olhar exigisse força. Conversamos. Em situações assim, as palavras percebem que são pequenas e ficam constrangidas.
Depois me despedi e continuei até a feira. Comprei o queijo, as bananas e as mexericas.
Fiquei pensando nas manhãs depois do boxe. Não sabíamos que também falávamos do tempo. Não sabíamos que aquilo que parecia rotina já era uma forma discreta de felicidade.
A manhã prosseguiu com certa crueldade serena: as barracas abertas, os feirantes gritando ofertas, as pessoas escolhendo tomates, o sol pousando sobre as coisas. O mundo não havia mudado, embora alguma coisa em mim tivesse perdido o lugar. Voltei para casa com as sacolas nas mãos e um pensamento constante difícil de admitir: acho que não vou vê-lo de novo, meu velho!
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Almocei assistindo a essa entrevista com o professor Clóvis de Barros Filho. A frase dita no final acabou se tornando o título deste número do Vida Pixel. Vale cada minuto até ela.
A vida nunca vai nos avisar “este é o momento que mudará tudo”. Na maior parte das vezes, ela apenas deixa uma fresta. Cabe a nós reconhecê-la e cutucar o buraquinho até conseguirmos passar o corpo inteiro.