Pedaços de tempo, lapsos de sentido, memórias pixeladas. Diário visual de um mundo em fragmentos.
06 a 12/7/26
:::
Em qualquer tipo de discussão, sejam as brandas ou as mais intensas, sempre me arrependo do que eu não disse. A sensação em seguida é a de que nunca tenho o argumento suficiente para finalizar com maestria e inteligência.
Não pense que isso é invenção do seu tempo, do seu nervosismo particular. Já no século XVIII, Diderot (iluminista, cético, homem de banquetes e embates) flagrou essa sensação rondando as salas de jantar que frequentava: a réplica perfeita, a ironia afiada, o argumento que mataria a discussão ali mesmo, e que só chega quando não se está mais no embate.
Assim, ele cunhou o termo o “fantasma da escada”, uma tradução literal da expressão em francês l’esprit de l’escalier. Dizem que após ficar sem reação durante um jantar e ser pego de surpresa por uma provocação, ele relatou que o “homem sensato” só consegue recuperar a clareza mental para formular a resposta ideal quando sai da situação e chega ao pé das escadas, tipo na saída, e pensa, mas por que diabos eu não disse isso ou aquilo?
Esse “fantasma”, que assombra seus pensamentos após um debate frustrante, é universal e reflete como nossa mente processa emoções e informações sob pressão.
Existe apenas o corpo, disparando na agonia do momento, gastando cada grama de glicose disponível para produzir a única frase que ele foi capaz de produzir com o sangue que tinha, com o cortisol que tinha, com o tempo que tinha.
Não é que você falhou em ser brilhante na hora, é injusto pensar assim. Você compara o seu eu de então (suado, cronometrado, cercado) com o seu eu de agora, sentado, seguro, com todo o tempo do universo para ser genial.
E claro que o segundo ganha. Ele sempre ganha. Ele não estava lá, não é? Por isso que digo que não devemos temer o fantasma, pois ele não assombra nada. É só o eco de um sistema nervoso comemorando, tarde demais para perceber, que fez exatamente o que devia: manteve você inteiro. Não há debate perdido quando o corpo, com os recursos que tinha, escolheu não quebrar.
:::
Aconteceu comigo essa semana, no trabalho. A coisinha mais jovem da sala lançou uma piada sobre idade avançada na minha direção e, claro, todos riram. Fiquei ali ruminando em segundos alguma resposta e não me veio nenhuma, exceto o clássico insulto “Não me chame de Tio que meu pau fica duro!” Melhor não.
(Pula o tempo para o final do dia)
A resposta inteligente raramente chega quando queremos. Ela costuma aparecer horas depois, quando o agressor já foi embora e você está sozinho no banho. É um fantasma pontual, que só aparece para o arrependimento. Algumas respostas que ele me trouxe:
- “Não, tá tudo bem. Você não é ofensiva. É só previsível com autoestima demais.”
- “Que comentário ousado para alguém com tão pouco repertório.”
- “Sua personalidade veio pronta ou você treinou para ser desagradável?”
- “Eu responderia à altura, mas não consigo me abaixar tanto.”
- “Você chama isso de humor? Parece mais um pedido de atenção mal formulado.”
- “Não me incomodou. Só fiquei constrangido por você.”
- “Você entrou na conversa ou apenas tropeçou nela?”
- “Admiro a confiança de quem fala sem ter nada a dizer.”
- “Relaxa: ninguém espera nada de bom vindo de você.”
(Volta o tempo para o momento do insulto)
Dias antes, lendo sobre Teoria dos Jogos, pesquei ideias incríveis que podemos usar na vida. Adaptei alguns itens e criei quatro perguntas para usar antes de responder a um conflito:
- O que eu quero obter?
- O que a outra pessoa quer obter?
- Que comportamento minha reação vai incentivar?
- O que acontece se isso se repetir dez vezes?
No caso citado, sem pensar, minha cabeça correu as quatro perguntas em décimos de segundo e a resposta óbvia era não dar resposta nenhuma. Apenas olhei para ela com minha mais recente aquisição expressa: o jeito Gen Z de olhar as pessoas.
Funciona. Dessa vez o fantasma ficou sem trabalho: a resposta certa já tinha chegado e em silêncio.
:::
Encontrei B na Galeria Nova Barão. Trabalhamos perto um do outro no centro agora, e ele tinha pedido indicação de lojas de discos (desculpa perfeita para sumir do escritório uma tarde). Passamos na Made In Quebrada Discos, uma das melhores do lugar. Eu não ia comprar nada. Aí vi o Coming Home, do Leon Bridges largado ali, parado, esperando alguém com menos disciplina que eu (lógico que não tive disciplina nenhuma). Levei. B pegou uma banda qualquer, o nome não interessa.
Na hora de pagar, o dono, o simpático e cada vez mais famoso, João Paulo Bueno (JP), pergunta a ele:
— Crédito ou débito?
B, que nunca deixa passar uma deixa e nem um flerte discarado, responde sem tirar os olhos dele:
— Débito, né. Afinal, ninguém nunca me dá crédito.
A loja inteira caiu na risada.
:::
Preciso ter cuidado para não reduzir a existência a trajetos. É fácil demais e fico monotemático: o metrô tem hora certa, portas que abrem e fecham, um mapa que te diz exatamente onde você está a cada instante. Escrever sobre tudo o que acontece nele dá a ilusão de ordem, de que o dia pode ser contado em estações. Mas o dia me atravessa por vias diversas. Um pensamento que chega sem aviso enquanto escovo os dentes, uma lembrança que ressurge no meio de uma conversa qualquer, um mal-estar que não tem origem localizável. Essas travessias não deixam registro de horário, não têm plataforma. Não posso esquecer disso: a vida é muito mais do que vemos. Esse é o grande erro das pessoas que escrevem. Elas acham que só é digno de tomar vida nas palavras os acontecimentos incomuns e incríveis. A vida vai além. Deus (ou o diabo?) está nos detalhes!
:::
Espremido entre desconhecidos no metrô, eu atravessava a cidade sem realmente estar nela. Nos fones, Royal Moon, do Ruby Haunt. Lá fora, São Paulo corria pesada. Aqui dentro, por alguns minutos, tudo ficou mais leve. O mundo, tão grande quando estamos sozinhos, parecia pequeno naquele vagão cheio de pesadelos alheios. Todos querem cama. O corpo cede, a cidade cede, e só a música segue acordada dentro de nós.
:::
Passei tantos anos entre os próprios pés e o transporte público que nunca me acostumei à ideia de ter um carro parado à espera, como um cachorro grande demais pra casa pequena. Não sei se é uma culpa anticapitalista, anarquista, ou só um resquício de época, mas o carro sempre me pareceu uma concessão, não uma conquista. Hoje ela precisou dele pro trabalho. Me deixou na estação, de carona, e o resto do caminho eu fiz a pé, absorvendo a cidade em vez de ir de um ponto a outro rapidamente. Porque é isso que se perde de carro: o detalhe, o acaso, a rua que só existe pra quem caminha nela.
Ouvir essa cover andando com seus pés é diferente de ouvir com pneus.
:::
Imito estilos e jogos de palavras. Não consigo criar nada realmente inovador. Claro que me conformei com isso. Não sou escritor profissional, não escrevo histórias incríveis. E de verdade, me basto nessa vida besta e simplória de arremedos e imitações de grandes mestres e mestras. Fingir também é uma arte!
:::
Publicamos um post no Instagram do trabalho. Uma determinada pianista explicando um determinado trecho de uma obra que será apresentada em breve lá. Os comentários são os melhores, pois são os amigos dela, musicistas e eruditos, que tecem diversos elogios. Achei incrível aquilo porque estamos perdendo a riqueza do nosso vocabulário. Estamos criando combos de frases prontas como se fossem argumentos. A prova que ter referência de leitura é algo fabuloso, tanto que um mesmo elogio de exaltação ganha diversas camadas de estilos e diferenciações.
Mestra, bravo, iluminada, belíssima, bárbaro.. E por aí vai.
:::
Não há uma semana que não fale sobre as músicas do Arms and Sleepers. “Belfast”, faixa do álbum What Tomorrow Brings, lançado pela Pelagic Records. Escrita, produzida e interpretada por Mirza Ramic, a canção combina atmosferas eletrônicas, pulsação orgânica e uma melancolia cinematográfica. A voz de Sofia Insua, também responsável pela letra, conduz a faixa com delicadeza e intensidade, ampliando seu caráter íntimo e contemplativo.
Toca em alguma parte sem nome do coração. Um lugar que deve ser vazio como o diabo, pois ecoa de modo calmo e reconfortante. É lindo estar no aqui e agora, vendo a tragédia do mundo, saber que o tempo, implacável que é, nada perdoa, tudo destrói, levantando uma poeira de amor e carinho.
:::
Um dos momentos mais divertidos de Widows Bay.

:::
Comprei Bags & Trane – Milt Jackson & John Coltrane, em vinil. O melhor e mais cool álbum de jazz que meus ouvidos já mergulharam. Tecnicamente, não consigo explicar porque é bom. Mas ele te embala, te faz beber, pensar, agir, comer a vida, sentir o momento. Bebop cool de embalar sensações multiplas, de ser trilha de seus passos apressados ao trabalho, de andar na rua com as mãos nos bolsos debaixo de um frio desgraçado mesmo com o céu azul e o Sol a pino. O que está acontecendo comigo? Não tem jeito: eu envelheci e sou um homem que consome jazz. Gente do céu, não que eu me esqueci das minhas raízes, mas digo com absoluta certeza que é como se as notas loucas e diversas agora fizessem sentido total em meu modo de ver a vida atualmente. Sou bebop, como jazz e fusion em um só corpo. Eu sou jazz. Eu sou música.
:::
Manhã de feriado, sentado em meu escritório, olhando pela janela, céu azul, dia bonito. Me vem as lembranças do meu perdido home office, dos dias que eu saia às 9h para a aula de boxe e saia tranquilo. Faz um ano. Eu reclamava? Muito. Acho que eu era completamente feliz e não sabia. É sobre ser menos rabugento e tolerar mais as pessoas.
:::
Odeio sonhar com pessoas que sei quem é, mas não convivo. E é sempre algo com uma intimidade estranha, como se mergulhasse nesse ser profundamente. Acho que, devido a ver demais Noite de Sexta, Manhã de Sábado o fantasma de Bohdana Smyrnova, que em meus sonhos chamo de Lucifernandis, me vem vez ou outra sempre muito real.
É lá que ela existe. Seus olhos têm a cor dos pântanos que meus pés nunca pisaram: verdes, cinzentos, talvez feitos de musgo, fumaça e alguma luz metálica caída do céu. Não são águas tranquilas. Guardam matéria antiga, caminhos submersos e a promessa pouco confiável de que ainda existe chão. A franja escura desce sobre a testa numa desordem que parece ter sido cuidadosamente esquecida. O cabelo sempre se curva em torno do rosto e uma mecha, levada pelo acaso ou por alguma inteligência do vento, atravessa-lhe o nariz. Uma linha separa a mulher que se apresenta daquela que ninguém alcança inteiramente. Os olhos, dóceis e atentos, parecem vigiar o mundo sem permitir que o mundo perceba. Há neles a atenção dos animais que aprenderam cedo a distinguir carinho de armadilha. Não são frios, embora saibam imitar o frio. Não são severos, embora conheçam a utilidade da severidade. Conservam uma ternura clandestina, que surge apenas quando já não há plateia, quando as luzes foram apagadas e o último desconhecido finalmente desistiu de impressionar alguém. O nariz é delicado e silencioso. A pele clara acolhe a luz sem devolvê-la completamente. E a boca, pequena e rosada, permanece fechada como se guardasse uma observação muito boa para ser desperdiçada. Não chega a sorrir.
Há naquele quase-sorriso uma ironia sem crueldade completa, uma pequena lâmina embrulhada em veludo. Parece saber que o mundo é ridículo, mas talvez ainda espere que alguém lhe apresente uma exceção. Há nela um amor irreverente e real, que deseja rir quando não deveria, desaparecer pela cidade, perder a hora ao lado de alguém suficientemente interessante para que sua vigilância possa finalmente descansar.
Porque Lucifernandis está cansada de vigiar os outros e a si mesma…
Lucifernandis das cordilheiras
Deu-me os livros
Abriu-me a cabeça
Lucifernandis lá do sul
Essa frase, meu amigo…. “Não há debate perdido quando o corpo, com os recursos que tinha, escolheu não quebrar.”
Dá uma agonia muito grande quando tempos depois, a gente pensa ”devia ter dito isso ou aquilo”… sei lá, faz muito sentido mesmo conseguir pensar no que dizer quando seu corpo consegue processar melhor a situação. Em alguns casos, que na hora não soube o que dizer, uma semana depois fui e dei a resposta pra pessoa que foi desagradavel comigo e foda-se. hahaha
Dizem que é bom devolver o constragimento pra pessoa, né? 😀
https://nyrtais.blogspot.com/
Sim. O certo mesmo é dizer “Vai procurar um jegue viúvo” pra todas as situações. Mas, tem que ser civilizado, nem? 😅