Pedaços de tempo, lapsos de sentido, memórias pixeladas. Diário visual de um mundo em fragmentos.
20 a 23/7/26
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Dormi mal. Não sei, de verdade, o que está acontecendo. A transição domingo/segunda e seus efeitos parecem que criam gases de ansiedade. Uma pressão que se acumula por dentro, desconfortável, difícil de localizar e ainda mais difícil de expulsar.
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Domingo e segunda representam a fronteira entre o tempo que parece pertencer a você e o tempo novamente submetido às obrigações. A ansiedade brota nesse território intermediário, quando o descanso já terminou e a semana ainda não começou por completo. Angústia diante do futuro imediato, a realidade volta a exigir uma forma, uma função. E mesmo lendo, o sono não vem. Tentei oferecer a ela uma narrativa externa, mas a maldita permaneceu se ocupando.
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Culpa minha, em parte. Li “Como ouvir Jazz”, de Ted Gioia, até umas 4 da manhã. Me forcei a dormir. Então, o sono veio de modo estupido, mas acordei logo em seguida, às 7h. Uma madrugada aprofundando-se em algo que me dá prazer e sentido, mas que eu pago com uma espécie de ausência no dia seguinte. Quanto mais compreendi sobre o tema, menos habitei plenamente a manhã. Estou vivendo um território de descoberta, quase uma linguagem nova para organizar a experiência, mas a alma, o entusiasmo de viver, não estão aqui comigo.
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Um homem lê um jornal. Cabelos brancos, óculos finos, camiseta cinza e um terno puído por cima e tênis de corrida. Uma elegância total. Só que ele não parece “fora do tempo”. Acho que está mais próximo de carregar o próprio tempo consigo. Como um vinil raro, tudo nele sugere objetos e gestos que adquiriram valor pelo uso. A formalidade antiga e a informalidade contemporânea. Ele não tenta parecer jovem nem velho. A beleza está justamente nesse desgaste, naquilo que já viveu o bastante para não precisar parecer novo. Encontrou uma forma própria.
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Saudades do papel, do cheiro do jornal, de pegar nele. Volto a assinar? Queria ler jornal no metrô, usar terno puído, tênis e camiseta por baixo. Mas, se me chamam de velho com meu estilo urbano, imagina com esses trajes.
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Cruzei com uma mulher que, de longe, ostentava uma tatuagem que me pareceu um pentagrama estilizado. Mas que nada, era o rosto de um cachorro, aquela raça que parece o Chewbacca, de Star Wars. Desculpem se ofendo alguém, mas imagino o tamanho da solidão de uma pessoa que tatua o rosto do seu animal de estimação no braço. Mas, espere, eu tenho o rosto de minha antiga gata no antebraço direito! Ah, mas dêem um desconto: naquela época eu era estupidamente só!
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Conseguir dormir cedo é fabuloso. Acordar antes do despertador de modo natural, é saúde. Levantar disposto, a mente “a milhão”. Humor refinado, vontade de tudo, chegar antes de todo mundo no trabalho e, por isso, sair mais cedo. Tudo funciona, tudo se encaixa. Dormir cedo é a riqueza e a melhor arma para quem não é rico. Venci na vida!
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Me perdoem os entusiastas, mas odeio calçados Croc. Eu sei, sou chato. Mas acho que você tem que aprender a viver com opiniões contrárias. E aceite o seu extremo mau gosto. Feio até mesmo para ficar tranquilo em casa. Inventaram essa danação para quê, meu deus? Meus olhos sangram!
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Me sinto completamente deslocado sem meu Menino Monstro. Tudo está bem, nada de ruim está acontecendo. Daí vem uma angústia cheia de saudades. Não funciono mais sem família. Sou um pai incondicional.
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Em cinco dias, chego aos meus 48 ciclos. Não me pergunte como me sinto, pois não sei. Talvez me sinta com 25, apesar do amadurecimento sobre determinadas ideias e atitudes. Errei como um diabo. Mas também acertei como um anjo. Eu sou os dois. Na minha direita, um gato mágico e sereno. Na esquerda, um lobo selvagem e louco. Nesses dias em que a idade se aproxima, há aquele cheiro de mudança no ar. Dia após dia, os sonhos se tornam reais. Não é repentinamente. Penso na morte mais vezes. Isso me faz estar presente. Grato. Vivo.
Penso na morte e ela me dá um dia azul de 24 graus.
Penso na morte e ela me oferece um colibri bicando o vidro da janela, às 7h da manhã. Penso na morte e ela me dá mais um dia neste planeta incrível, cheio de morte e vida, de graça e contradição.
Em 50 anos, alguns de nós provavelmente não estaremos mais aqui.
Em 100, todos que me leem serão saudades e lembranças boas.
Em 200, nossos nomes serão esquecidos.
E em 300 anos, todas as nossas alegrias, todas as tristezas, todas as conquistas e todas as nossas derrotas, serão como se nunca tivessem acontecido. Uma árvore gigante que cai em uma floresce solitária emite som? Como, se não há ninguém para ouvir?
Como bem disse Steve, “Você já está nu. Não há motivo para não seguir seu coração.”
Relaxe!
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“Tomas pensava consigo próprio que ir para a cama com uma mulher e dormir com ela são duas paixões não só diferentes como quase contraditórias. O amor não se manifesta através do desejo de fazer amor (desejo que se aplica a um número incontável de mulheres), mas através do desejo de partilhar o sono (desejo que só se sente por uma única mulher)”.
Milan Kundera em “A Insustentável Leveza do Ser”
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Se, em um dia qualquer, alguém chegar na sua vida por acaso, e te deixar um bilhetinho, dizendo, “Você quer, um dia, partilhar o seu sono comigo?”, por favor, meu bem, não pense duas vezes. Jogue-se nas inconstâncias do afeto e da vida. Nenhum amor é tranquilo…
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Eu estou satisfeito em em permitir que você me deixe de lado
Até este o dia, Você sairá com muitos outros homens
Mas deixe-os saber que é apenas momentâneo
Diga a eles que eu tenho um sonho
E diga a eles que você é a protagonista