Pedaços de tempo, lapsos de sentido, memórias pixeladas. Diário visual de um mundo em fragmentos.
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Voltando (em definitivo?) ao Vida Pixel, uma espécie de resumo semanal para ser publicado ao final dos decrépitos domingos que antecedem a semana. Post escrito no Google Keep e computador, entre 28/6 a 6/7, durante o trajeto ao trabalho, em casa ou descansando depois do almoço, sobre as maravilhas e agruras de uma vida comum. Não há muitas fotos. Isso era para ter vindo ao mundo ontem, domingo, depois da derrota ridícula do Brasil na Copa, mas o cansaço e as IPAs amoleceram o corpo e o cérebro.
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A doença de me organizar. De inventar um padrão para tudo. De permanecer eternamente no ponto de partida, cercado de mapas, métodos, rituais, planejamentos ad infinitum. Enquanto isso, uma voz aguda dentro de mim grita, indelicada: Pare de se perder nos formatos, seu maldito. Apenas faça!
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Durmo tarde. A insônia me visita sem pudor, encostando seus lábios nos meus, beija minha noite, me tira o descanso.
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Não posso me culpar como se tivesse sido descuidado. Minha vida nunca foi simples: trabalho desde os 14 anos, muitas vezes chegando em casa com o corpo gasto e a cabeça implorando por silêncios de todos os níveis. Havia dias em que tudo o que eu queria era não pensar, não exigir mais de mim, apenas me deixar levar por algum entretenimento leve, barato.
Por isso, não acho justo medir minha história apenas pela régua da força de vontade. O tempo sempre foi a moeda mais cara em qualquer época da humanidade, e nem todos recebem a mesma quantidade para gastar consigo mesmos.
Não posso me culpar por ter sido, tantas vezes, uma engrenagem dentro da máquina que produz dinheiro para quem sempre soube ganhar dinheiro.
“I wish I was a little bit taller, I wish I was a baller
I wish I had a girl who looked
good, I would call her
Wish I had a rabbit in a hat with a bat
And a six-four Impala
I wish I was a little bit taller, I wish I was a baller
I wish I had a girl who looked
good, I would call her
Wish I had a rabbit in a hat with a bat
And a six-four Impala
I wish I had a brand-new car,
so far I got this hatchback
And everywhere I go, yo, I get laughed at…”
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Acredito que esse formato pode durar mais. O Google Keep me dá uma espécie de ubiquidade discreta: posso escrever enquanto me desloco para o trabalho, entre uma estação e outra, entre um cansaço e um pensamento que quase escapa. Apenas preciso focar em me entregar a esse fluxo invisível de criação e fabricar significados fantásticos para colorir os momentos mais insípidos da vida.
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Uber com Menino Monstro. Levando para a escola. A cidade ainda boceja pelas janelas embaçadas. No banco de trás, seguimos como dois fugitivos domésticos. Toca Power of Love no rádio, e por um instante, sou também menino aproveitando a tarde na frente da TV, com meu filme favorito. O amor, máquina cafona que é, insiste em salvar a manhã.
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Metrô. Café e croissant como oferendas mínimas ao corpo cansado. A multidão desce pelas escadas em uma correnteza sem rosto. A moça segura o copo quente protegendo uma pequena ideia. O dia começa mastigando manteiga, pressa e subterrâneo.
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No vagão, mais uma vez, a mulher que parece Doris Giese. Unhas pretas e perfeitas, lanças negras de pedra de dragão. É o segundo dia seguido que ela atravessa minha órbita no metrô. Andrógina, exata, quase mitológica, como se viesse de outro catálogo da existência. A nostalgia de On The Wall nos fones combina com o seu rosto branco e quadrado. De outros tempos, de outros modos de ouvir música, de outros momentos esquecidos. Ela se levanta e se perde na multidão.
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Almoço. Comprar discos. No intervalo do dia, procuro uma fresta onde a vida ainda pulse. Garfos, calçadas e vitrines, o desejo reaparece em formato de vinil. Comprar discos é meu modo elegante de adiar o colapso, minha dose de felicidade empoeirada. É dizer ao mundo: tenho ouvidos que me levam aos céus.
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Você não precisa explicar todas as suas referências. Elas são suas joias garimpadas com muito esforço para serem distribuídas de modo fácil para todos.
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Dani, minha DJ assistente do Spotify, tocando os meus hits. Coisa assustadora que minha mente ainda não se acostuma. Se ela fosse inteligente de verdade, tocaria algo que eu conhecesse, seguido de algo que desconheço. Gosto de sair da minha própria ignorância. Ao menos ela pega todas centenas de playlists que fiz e vai catando coisas que realmente gosto, misturando estilos improváveis, intercalando com falas de sua voz feminina como um fantasma da rádio Antena 1.
Errata: sim, ela intercala as músicas de suas playlists com indicações que você não conhece e que provavelmente você vai adorar. Por exemplo, gosto de um certo tipo de música mal gravada, eletrônica, com timbres nostálgicos repetitivos e frios. Ela acaba de me apresentar, Pacific Coliseum, com a sua Ocean City, trilha ideal para minhas caminhadas pela cidade observando pessoas e lugares. Mesclou de modo acertado com Andromeda, do Gorillaz. Maldito algoritmo que tudo sabe e consome!
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Nunca me canso de Time Will Tell, do Arms and Sleepers e do que ela me provoca…
Day by day, my dreams come true!
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Descrever os eventos da vida interessam a quem? Não quero ser aquela pessoa que procura momentos, que retorce aos céus e aos infernos, que reza a deus e ao diabo, para que algo realmente toque e reverbere a sua vida pacata e sem grandes momentos interessantes.
Ir além do óbvio. Verter mel das pedras é minha maior habilidade. Sou dos que acreditam que o ordinário esconde segredos extraordinários.
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Tudo o que acabo de dizer, é claro, desdobra-se em literatura? A questão se enreda em fios mais finos: como habitar anos e anos numa experiência de vida tão apartada da experiência de quem me lê? O medo de ser incompreendido, de não alcançar ninguém por causa dessa distância, é um medo do tamanho de um oceano.
Esse sentimento oscila, quase sempre, com a certeza súbita de que é tudo bobagem. Mas, veja bem, nenhuma vida é igual à outra, ainda que dividam a mesma rua, a mesma renda, o mesmo teto.
Cada existência é uma ilha só sua. E, no entanto, o que nos liga é universal: todos carregamos a infância como uma cicatriz, todos já amamos e fomos recusados, todos, em algum quarto escuro da consciência, lembramos como último pensamento antes de se entregar ao sono, que vamos morrer.
Escrevo fingindo que a linha é uma corda jogada de uma ilha à outra, sem nunca saber se ela chega, só confiando que, do outro lado, alguém também está com as mãos estendidas.
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Durmo. A semana nasce numa madrugada fria. Lá fora, a cidade ainda recolhe seus fantasmas; aqui dentro, debaixo de minhas cobertas, alguma coisa acende em silêncio. Que sortilégios, delícias e mistérios ela me reserva? Que pequenas epifanias vai esconder na superfície ondulada do negro café sem açúcar, no ruído branco e metálico do metrô, no cansaço de se dormir pouco e na música estranha nos fones?
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Essa voz aguda as vezes grita comigo também 🤡
Saiba que, aqui dessa ilha, eu tô com as mãos estendidas
Muito obrigado, cara!