Os últimos ganhadores do Oscar foram otimizados para o celular. Honey Don’t! foi otimizado para você parar de olhar o celular.
45% no Rotten Tomatoes. Metacritic na casa dos 46. A crítica especializada chegou ao consenso de que Honey Don’t! é uma bagunça estilosa sem destino. Dito isso: é um dos filmes mais gostosos de assistir que apareceram em 2025, e a contradição entre essas duas afirmações é exatamente o que torna o caso interessante.
Ethan Coen (o Coen que sobrou depois que a dupla se separou) está fazendo uma trilogia de B-movies lésbicos com a esposa Tricia Cooke, e Honey Don’t! é o segundo capítulo. O primeiro foi Drive-Away Dolls. O terceiro se chamará Go Beavers, o que já diz muito sobre a seriedade das intenções aqui envolvidas.
A premissa: Honey O’Donahue, detetive particular em Bakersfield, Califórnia, investiga uma série de mortes ligadas a uma igreja misteriosa comandada por um pastor carismático e levemente assustador (Chris Evans, desconstruindo o Capitão América com um prazer lindo de assistir, ele realmente parece se divertir com aquilo!).

A lindíssima Margaret Qualley entrando em cada cena como se o enquadramento tivesse sido desenhado ao redor do jeito que ela anda. Jesus me chicoteia!
A crítica e um bando de donzelos mala diz que o roteiro não fecha, que os plots se multiplicam sem resolução, que é uma “bagunça de partes díspares.”
Tudo isso até que é verdade, mas nenhuma desses itens me impediu de passar 89 minutos completamente entretido. Aubrey Plaza como uma policial com a expressão permanente de quem discorda de tudo que está acontecendo. Charlie Day como um detetive heterossexual que recusa aceitar que Honey é lésbica, com a teimosia específica de quem nunca vai aprender. A fotografia de Ari Wegner em tons de cartão-postal desbotado…. Minha Nossa Senhora dos Milagres Pretos, primor B, noirzão mordenão de dar com pau, cinema kitsch de primeira qualidade, caceta!
Ok, mas vamos ao que interessa: temos uma produção pensada para tela grande. Filmado para cinema. Enquanto boa parte do que vence prêmios hoje adota a gramática do streaming, com closes obsessivos e repetitivos que funcionam igualmente bem numa tela de cinco polegadas deitada no sofá, Coen e Wegner constroem quadros que precisam de espaço para respirar.
A Bakersfield empoeirada, as sombras do noir, a geometria de dois corpos num bar mal iluminado:isso perde metade da razão de existir comprimido na telinha do carilho que se vê com olhinhos apertadinhos.
Perceba o padrão dos filmes mais premiados dos últimos anos: close no rosto, close na lágrima, close no lábio tremendo. Hollywood já entendeu que a tela principal de boa parte da audiência cabe no bolso. Então os diretores entregam o que a tela pequena consome bem.
Coen não faz isso, confia no plano aberto, na profundidade de campo, no que está fora de foco, mas dentro do quadro. É filme que tem vergonha de ser assistido em portrait mode. E isso, num momento em que essa escolha é cada vez mais rara, funciona como um ato quase subversivo.
O plot é mesmo uma bagunça? Porra, demais. O final resolve alguma coisa? Jamais. Mas o Lebowski também não resolvia nada e hoje tem altar em casa de cinéfilo maluco fumador de erva. Acredito que Honey Don’t! é sim um filme que a crítica vai rever daqui a dez anos com olhos mais generosos e dizer “bagulho bom esse, hein?”
De qualquer forma, assista numa TV. Se tiver uma TV grande, melhor. Aumente o som, tome umas cervejas e resista ao impulso de abrir o Instagram enquanto o plano não corta.
Ah, e providencie o esvaziamento da sala: mãe, avó, crianças, qualquer pessoa com quem você precise manter alguma reputação moral, porque Coen e Wegner decidiram que nudez e perversão merecem o mesmo cuidado fotográfico de um Kubrick, e o resultado é uma sequência de imagens sacanas tão bem enquadradas que você vai bater uma (não é nada disso que você está pensando, seu pervertido!) palma sem querer ao final.
Honey, Dont!
- Onde Prime Video
- Classificação 18 anos
- Elenco Margaret Qualley, Aubrey Plaza, Chris Evans
- Produção EUA, Reino Unido, 2025
- Direção Ethan Coen
Ta aí, um filme que eu não queria ver. Mas isso foi antes de ler seu texto. Porra, vou colocar na listinha, tá bom, tá bom.
HAHAHAHA. Vai na fé. Gosto de filme com pegada B, trash e noir, esse aos meus olhos, foi uma delícia!
a energia caótica do trailer meudeus !!1!!!1 curiosíssima
😄 só tira as crianças da sala!!!
Adoraria ver sua crítica sobre o melhor terror psicológico dos últimos tempos, Obsessão de Curry Barker. Já viu?
Olá, alguém. Nunca ouvi falar. Mas vejo o quanto antes, não se preocupe.
Tá no cinema agora. Acho que você vai curtir. Não é só romance… é aquele tipo de filme que começa como paixão e vai ficando cada vez mais estranho, intenso e desconfortável. Você sai tentando entender quem realmente era obcecado por quem. Veja o trailer no YouTube.
Ah, eu vi aqui, senhor/senhora, Anônimo. Obrigado pela dica!