A Apple TV tem esse hábito estranho de parecer pequena até o momento em que lembra ao mundo que é financiada por uma empresa capaz de comprar o alfabeto e ainda reclamar da tipografia. Daí, do “nada”, eles soltam uma bomba que explode a sua e a cabeça de todo o mundo.
Estou me referindo a Widow’s Bay, uma das melhores estreias deste ano miserável de meu deus. Digo isso sem o entusiasmo febril de quem viu dois episódios e já quer fundar uma seita no Letterboxd. Não mesmo. Sou bem sóbrio e odeio celebrar coisas medianas que todo mundo paga pau.
Matthew Rhys (ator que tem aquela verve sofredora e ao mesmo tempo engraçada, aquela melancolia por baixo da ironia
porque, assim como do Bill Murray, mesmo quando é cômico, há um fundo de cansaço, tédio e desencanto), talvez o ator contemporâneo que mais entende a dignidade miserável dos homens emocionalmente demolidos, vive Tom Loftis, prefeito de uma pequena ilha na costa da Nova Inglaterra.

E Loftis quer revitalizar a comunidade atraindo turistas, mas o problema é que os moradores parecem menos interessados em “reposicionar a ilha” e mais ocupados em acreditar nas maldições, assombrações e outros inconvenientes do passado tenebroso local.
E é a partir dessa premissa que a história se desenrola servindo um delicioso equilíbrio entre comédia e terror, em uma precisão rara, sem transformar o medo em parque temático nem a piada em piscadela desesperada. O elenco é repleto de feras que faz qualquer cena parecer mais inteligente do que ela tinha obrigação de ser, e é um prazer à parte: Stephen Root, Toby Huss, Dale Dickey, Jeff Hiller, vencedor do Emmy, e por aí vai. Ninguém passa despercebido.
Mas perai que tem um destaque que rouba a cena e brilha muito no Corinthians: Kate O’Flynn, a personagem “Patríxia”. Para quem não sabe, a atriz inglesa é ligada ao cinema de Mike Leigh, embora eu a tenha reconhecido mesmo na “romantasia” Minha Lady Jane, do Prime Video (o que talvez diga mais sobre mim do que sobre ela, mas sigamos aqui).

Uma das cenas já icônicas de “Patrixia”, a melhor. Nasce uma estrela!
Sério, criei um afeição incrível por essa mulher, pois ela é estranha, engraçada, um olhar fantasmagórico e que mesmo assim, passa algo terrivelmente sedutor. E prestem atenção ao episódio 4, Beach Reads. Minha nossa senhora, se você nunca se arrepiou de medo dando altas gargalhas, convido a todos e todas a sentirem esse calafrio cômico, essa sensação e sentimento esquisito que não há adjetivo em nossa língua, mas que vou batizar aqui de Gargalafrio, ahhahaahhaha!
Pois bem, comece Widow’s Bay agora. O último episódio estreia na próxima quarta (17/5/2026). Eu sei que há muitas formas dignas de perder tempo hoje em dia, mas ficar por fora de uma boa série quando ela ainda está viva é certamente uma das mais imbecis.
:::
Descubra mais sobre ::: DENIAC E SUA VIDA LOW-TECH :::
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.