Adoro o Edgar. Tudo o que ele faz parece nascer de um lugar muito vivo, algo criativo, inteligente, que vem diretamente das esquinas. Há sempre uma sensação de liberdade nas coisas que ele coloca no mundo.
Não se trata de replicar a ideia futurista das metrópoles neon imaginadas por William Gibson ou Ridley Scott. No caso de Edgar, o futuro nasce no improviso, nas gambiarras criativas e da tensão permanente entre tecnologia barata, cultura popular e sobrevivência urbana. É um cyberpunk tropical, periférico, com cheiro de asfalto quente e som de caixa de som distorcida.
A música, a imagem e a performance que ele constrói carregam exatamente esse espírito. Há algo de hacker cultural em seu trabalho: ele pega referências aparentemente distantes (funk, rap, eletrônica, dub, arte urbana, ironia pop) e remonta tudo em um organismo vivo. É um futuro feito de sucata, de inventividade e de rua. Por isso, quando Edgar cria, parece montar pequenos dispositivos de linguagem.
Se o cyberpunk clássico falava de megacorporações, hackers e cidades saturadas de tecnologia, a versão brasileira que Edgar encarna desloca essa narrativa para outro território. É o artista da quebrada que usa o que tem à mão para produzir estética e imaginação.
Nesse sentido, ele não apenas dialoga com uma ideia de cyberpunk, mas também traduz para a paisagem cultural brasileira, transformando o gênero em algo mais orgânico, mais sujo e, sobretudo, mais nosso.
Agora, essa energia aparece novamente no registro ao vivo de duas faixas do álbum Rewind, gravadas na Casa Líquida em dub wise style. O material já está disponível e funciona como uma espécie de janela para o que está por vir: o álbum Rewind, previsto para 7 de abril.