Este post nasceu do Clube do Livro Entreblogs #02, um projeto paralelo de leitura coletiva em que compartilhamos, no blog, nossas impressões sobre o livro da vez. No caso, “Três”, de Valérie Perrin.
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Ok, vamos lá. E por gentileza, peço aos fãs que não me matem e perdoem meu vocabulário. Começo com a pergunta: Existe “maneira certa” de consumir literatura?
Resposta: claro que não. Mas existem maneiras mais conscientes de olhar para algo e se perguntar “Por que gostei” ou “Por que não gostei”.
Sei apenas que literatura não é:
- Gostar sempre;
- Entender tudo;
- Concordar com o autor;
- Terminar todo o livro (apesar de que esse eu terminei).
Porque literatura é experimentar um encontro. E muitas vezes o encontro é transformador. Mas também não precisa, correto? Pode ser entediante e irritante, sei lá. E tudo isso é válido.
Sobre romances, tenho uma divisão categórica bem particular.
- Literatura de história: o que acontece importa mais.
- Literatura de linguagem: como é dito importa tanto quanto (ou mais).
Sou um leitor do segundo tipo. E Três é claramente do primeiro.
Mas antes, só para explicar um ponto: cinema, por exemplo. O que dá sentido a um filme é o modo como a lente cria uma certa poesia, uma certa simbiose entre roteiro e o que ela capta em imagens. Cinema vive de imagem + ritmo + roteiro. Já a literatura, vive de linguagem.
Uma frase bem colocada pode incendiar uma cena banal. E nem estou falando de texto cabeçudo, poético. Estou afirmando que a escrita é a lente de um livro, e ela precisa ter tensão interna.
E neste livro, a história existe, mas a execução é estranha. O que pode estar acontecendo tecnicamente é que Valérie Perrin escreve de forma clara, fluida, emocional, acessível, mas não necessariamente cortante, experimental, linguisticamente inventiva, frasalmente memorável. Todos as nuances que fazem um livro ser incrível.
Porque o livro tem espaço e tempo para brincar com palavras, estas, combustível da nossa imaginação.
Ela, a autora, constrói sentimento pela acumulação narrativa, socando no tubo da nossa mente, descrições intermináveis e sem alma para chegar lá onde ela quer nos levar, que é sempre uma desgraceira atrás da outra. A maioria das frases não tem brilho, não há energia própria.
Vi pessoas dizendo que, enquanto liam, parecia um filme, ou uma série. Meu Mike Scott interno acorda e grita “No god, please no!”
E aqui, abaixo as calças no meio da rua, me acocoro e cago uma regra bem grossa e fétida: filmes e livros são mídias opostas. A mágica de um não pode existir na outra. E se o livro parece um filme é porque o autor já escreveu maquinando isso na cabeça. O tempo do livro tem que ser diferente do tempo do filme. O livro está mais para sonho lúcido do que algo nítido na sua mente.
Uma das melhores histórias que li na minha vida foi parar nas telas e foi um fiasco. Porque Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios foi pensado como livro, não um filme. Às vezes o oposto acontece: Cidade de Deus, o livro, é chato. É um amontoado de informações muito interessantes, e só. Parece um livro-reportagem sobre a favela, as pessoas e o tráfico de drogas nos anos 70 e 80. Sorte que pegaram isso tudo, reescreveram e transformaram em um grande filme. Espero sinceramente que aconteça o mesmo com este da Perrin.
Três tem uma boa história, mas forma e conteúdo não conversam. A ideia é interessante, mas a maneira como ela é contada é entediante, juvenil, falta maturidade.
Daí listei o que o livro faz bem:
- Constrói atmosfera;
- Trabalha a amizade como eixo existencial;
- Usa o tempo como dispositivo narrativo;
- Entrega uma reviravolta estruturada.
Mas é mal contado. Caramba, me pareceu uma mistura de Stand by Me com As Invasões Bárbaras. Ou seja, uma mescla entre as memórias de amizade na juventude, como em Stand by Me, e o reencontro de amigos já envelhecidos que se reúnem em uma casa em um lugar paradisíaco para acompanhar um deles, doente terminal, em seus últimos dias.
Cara, o final de Stand by Me tem uma frase tão marcante que fiquei pensando: será que a autora não pegou justamente ali toda a essência do livro? Essa aqui: “Chega um dia em que os grandes amigos se tornam apenas pessoas que você encontra na rua e acena de longe.”
Perrin escreve com certa delicadeza sentimental. Isso é a força dela. Mas tem um ritmo irregular demais, uma excessiva contemplação, personagens que vivem mais na memória do que na ação. E, o que para mim foi o pior, um sentimentalismo que soa calculado demais.
Reconheço a habilidade dela em construir memória e atmosfera. Mas, para mim, o problema permanece, pois o ritmo dilui o impacto emocional e a nostalgia se alonga até perder força.
A amizade está ali, o tempo também, mas a narrativa parece sempre girar em torno de uma promessa de intensidade que nunca chega de verdade.
Resumindo, Três não é um livro ruim, apenas insiste em emocionar sem confiar na força da frase. E, para um romance, isso é quase como pedir aplausos antes do espetáculo começar.
Literatura é uma droga de alta pureza. Quem já provou as melhores reconhece, quase de imediato, quando a substância foi diluída. Eis um dos pequenos inconvenientes de envelhecer: quanto mais referências você acumula, mais difícil é ficar entusiasmado.
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Caramba, tua frase final resume muito do que eu penso sobre a literatura contemporânea dos anos 2010 pra cá:
“Eis um dos pequenos inconvenientes de envelhecer: quanto mais referências você acumula, mais difícil é fingir entusiasmo.”
Mas é isso né, nenhum livro é unanimidade.
Ah, cara. Nem gosto muito de resenhar livros que estão na crista da onda. Já entro sabendo que dificilmente vão me agradar e também não quero ganhar fama de turrão. Mas tem horas em que fica difícil não comentar. A literatura pop atual, na maioria das vezes, me parece rasa demais, preocupada em contar rápido uma história do que em trabalhar a linguagem. não sou nenhum literato ou crítico. Sou só um leitor que ainda espera encontrar, num livro, um pouco mais de densidade.
Sabe que, durante minha leitura de Três, em momento nenhum ficou rodando um filme na minha cabeça? Não sei se é porque eu consumi em áudio, se isso faz alguma diferença realmente, mas enfim, ouso dizer que nem funcionaria tão bem nesse formato…
Não amei Três tanto como a maioria das pessoas no grupo, mas gostei bastante dele, talvez porque eu seja muito mais da vibe de sentir que o que acontece importa mais, tanto lendo quanto escrevendo… Achei tudo muito, muito longo, um pouco mais do que gostaria, mas interessante, sei lá. Francês, definitivamente beeeem francês, hahahaha!
Pior que eu gostei também. Minha crítica é toda nesse vai e vem desnecessário, nas longas descrições.
Mas normal algo pegar mais com umas pessoas do que com outras.
Cada um tem suas subjetividades, seu jeito de olhar o mundo. Nada é certo ou errado. Eu que sou turrão mesmo hahaha
Eu me apaixonei por “Água fresca para as flores”. O primeiro da Valerie que li. E aí depois fui ler “Três” – até hoje não terminei. Kkkkkk Mas depois li “Querida tia” e agora estou lendo “Os esquecidos do Domingo”. Para mim é puro entretenimento. Gosto de acompanhar a vida das personagens, mas realmente não é nada extraordinário ou diferente do que vem sendo feito.
Pois é. Não tenho nada contra livros “fáceis”, pelo contrário. Tanto que adoro pulps mal escritos dos 60 e 70, ou os de fantasia boba. Minha questão com esse Três é que ele tem uma pretensão de ser algo profundo mas que na real se torna chato e repetitivo.
acho que esse livro vai continuar na minha categoria pessoal de não-sei-o-que-achei. ao mesmo tempo que gostei, ele me irritou (possivelmente porque me senti arrastada nele) HAHAHA o que também torna a experiência super válida né? acho que só dele me fazer pensar em 947609476045 coisas já valeu mesmo que talvez nem seja o propósito do livro (mas foi o que as vozes da minha cabeça me levaram a pensar) 😂
enfim, teu post já me fez virar uma chavinha do motivo de alguns livros me causarem estranhamento e outros serem tão bem apreciados. acho que pega bem isso de quanto mais referência mais a estranhamento causa histórias diluídas demais ou trabalhosas demais também. 🙃
Estou dizendo isso para todo mundo: não tenho problema algum com leitura pop, fantasia fácil, pulps simples. A série de romantasia que você me indicou é ótima, porque desenvolve maravilhosamente bem a proposta. O mundo é aquele, as possibilidades são aquelas, entre se quiser.
E você entra e é massa. Já em Três, fiquei exatamente nesse lugar também: gostei e me irritei ao mesmo tempo. Ele quer ser algo, diz que é algo, mas não é. Ele é menos do que se propõe.
Tenho amigas de muitos anos e, para mim, é praticamente impossível surgir uma atração nesse contexto. Quando você convive demais com alguém, a relação muitas vezes se transforma em algo quase fraterno. Por isso também me incomodou um pouco essa ideia recorrente de que um homem e uma mulher não conseguem manter uma amizade profunda sem que exista uma tensão sexual latente. Esse tipo de pressuposto sempre me parece meio preguiçoso narrativamente, como se a amizade por si só não fosse complexa o suficiente.
Outra coisa que me deixou pensando foi a crítica que muita gente faz sobre a possível fetichização do transgênero na história. Em alguns momentos parece que a identidade trans vira mais um elemento de tensão ou curiosidade da narrativa do que um personagem plenamente desenvolvido, e isso acaba gerando um certo desconforto na leitura.
Insisto: ela tem uma boa história, mas misturou alho com bugalho e foi para caminhos desnecessários.
Tudo poderia ter sido contado com menos páginas e mais frases matadoras. Detalhar tudo minuciosamente me parece muito mais uma tentativa de facilitar um futuro filme ou série, que se pá fica melhor que o livro se bem adaptado.
Eu fui a maior entusiasta do livro no grupo rs e eu acabo sempre olhando os livros muito mais pelo que está sendo dito e depois eu vou observar como está sendo feito.
Acho que eu vinha lendo muita romantasia e livros de suspense com muitas histórias mirabolantes e super personagens cheios de poderes kkkk e quando cheguei em Três ele me pegou. Porque falava de pessoas “reais” e porque tudo ali me parecia possível. Me pareceu uma grande fofoca. O fato de não ter tantas frases de efeito, parece que aumentou essa sensação em mim porque ele me passou essa vibe de isso poderia acontecer na minha rua rs
A gente vai acumulando algumas referências que interferem em como a gente encara as próximas leituras, mesmo assim, alguma coisa no livro me pegou ali no sentimento rs.
Mas sim, é um livro arrastado. Ele ser longo não é um problema porque eu não senti que as cenas descritas eram desnecessárias (como tem acontecido em alguns livros que eu tenho lido), mas algumas vezes a coisa se arrasta porque ele é muito muito lento.
Só que mesmo assim eu amei esse livro e vou falar dele por muito tempo. Acho que a experiência de ler em grupo também contribuiu pra deixar a leitura ainda melhor pra mim.
Foi muito bom ler sua resenha com um ponto de vista bastante diferente do meu, sério!
Hahaha. Que legal. Fico feliz que não levou pro coração. Tá vendo? Eu não tinha pensado nisso. Você ler muita fantasia te fez vibrar com algo real, próximo de nossas vivências. Muito interessante. Não foi ruim, é só uma leitura arrastada e quase largo. Foi muito legal fazer parte dessa leitura coletiva, nunca tinha participado.
Achei muito legal ver outro ponto de vista sobre esse livro. Eu amei e fiquei muito entretida na leitura, nem achei tão ruim assim ele ser longo hahaha
Isso da leitura em grupo faz a gente trocar essa ideia e conseguir pensar, analisar, sentir a leitura por outras perspectivas também. Isso é maravilhoso (pelo menos eu acho). Agora fico aqui curiosa pra ler outras resenhas tuas haha
🙂
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