Assisto a Roadrunner, documentário sobre Anthony Bourdain, o único ser humano que eu queria ser. Invejei sua liberdade, sua naturalidade, seu desejo de engolir o mundo. E me percebo preso a uma realidade que deixei que me envolvesse.
Onde está a liberdade que eu almejava, que eu respirava, que eu lia dos meus autores preferidos? Que diabos estou fazendo no meio de pessoas medíocres e incrivelmente jovens que temem o mundo? Pela terceira para traseira de Lúcifer, o que está acontecendo com essas pessoas?
Por que estou criando regras, condições, momentos e lugares ideais? O que estou esperando? Quem estou enganando? Para quem estou me adequando?
Por que estou seguindo tendências, escrevendo o que as pessoas esperam? Por que simplesmente eu não estou jogando no mundo o que penso? Por que deixo que gente decrépita role suas palavras repletas de vícios de linguagem adolescente diante dos meus olhos santos? Por que estou lendo as palavras de jovens burros e estúpidos, medrosos e frágeis como um pária leproso ?
E por que, meu Jesus Cristo na cruz, estou lendo um livro insuportavelmente ruim?
Eu não posso me esquecer que sou cria nascida no corpo apodrecido de Talese, Thompson e Capote. Que eu sou um verme cheio de orgulho da minha força escrota que jorra longe, da minha garganta grossa que escarra com estrondo e da minha língua suja que não hesita em xingar a mãe de quem quer que seja.
Eu preciso, eu devo, eu vou, voltar, a ser eu.
:::
Sou da raça antiga: meus pais eram escandinavos; traspassavam as costelas, bebiam o próprio sangue.Farei cortes por todo o corpo, tatuar-me-ei. Quero tornar-me horrendo como um mongol. Verás, uivarei pelas ruas.Quero enlouquecer de raiva.
Rimbaud
Descubra mais sobre ::: DENIAC E SUA VIDA LOW-TECH :::
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.