Faço aqui, de improviso, minha pequena homenagem a John Coltrane, que ontem, 23 de setembro, completaria cem anos,e não fosse o tempo, esse ladrão sem pudor, que nos rouba os dias e ainda nos deixa a conta negativa de saudades, eu teria publicado alguma coisa.
Coltrane entrou em minha vida há tantos anos que já não sei dizer em que porta bateu primeiro. Sei apenas que entrou. E ficou. Mas, nestes últimos três, tornou a chegar com outra força, como se sua música aguardasse que eu envelhecesse o suficiente para ouvi-la de verdade.
Hoje, mergulhado nas responsabilidades, nos afetos, nos medos e nesses pequenos milagres cotidianos que chamamos existência, entendo melhor aquele sopro. Há nele alguma coisa de prece e luxúria, de carne e espírito, de homem que procura Deus sem abandonar o mundano.
Como dito, Coltrane sempre morou em meus ouvidos. Foi trilha de tristeza quando a tristeza pediu companhia. Foi festa quando a alegria não cabia no peito. Foi música para o corre dos dias, para as ruas, para as tarefas, para o cansaço. E foi, tantas vezes, a centelha lançada sobre esse combustível perigosíssimo chamado imaginação.
Que seu nome atravesse outros cem anos. Que seu saxofone continue soprando contra o esquecimento. E que, enquanto houver alguém disposto a fechar os olhos e ouvir o mestre, permaneça vivo naquele lugar onde o tempo, por mais canalha que seja, jamais consegue pôr as mãos.
Coltrane é espetacular, um deus mesmo. Ouvi vários outros jazzistas magníficos, mas ele é de outro mundo. Nem dá pra explicar. Belo texto em homenagem 😉
Eterno. Obrigado, querida.