Tudo começou com um Compaq. Notebook antigo, 4 gigas de ram, 126 de HD. Coisa pouca mas que funcionava. Eu não queria muito. Bastava funcionar como uma máquina de escrever e, eventualmente, servir às minhas discotecagens caseiras. Nada de edição de vídeo, inteligência artificial ou cálculos para simular uma explosão de uma estrela. Só texto e música.
Instalei o Linux Mint. A ideia era oferecer uma segunda juventude ao equipamento, uma espécie de geriatria digital, o equivalente a hidroginástica e bingo. O sistema operacional era leve, bonito e gratuito.
Fiz porque existe certo romantismo em devolver utilidade às coisas que o mercado considera mortas. É uma pequena insubordinação contra a indústria. Mas o romantismo também tem limite.
A cada clique, uma penitência. Quando finalmente conseguia executar alguma coisa, já não me lembrava do que pretendia fazer. Passei dias tentando curá-lo. Consultei fóruns, instalei atualizações, removi programas e digitei comandos que nem o próprio diabo ousaria pronunciar em público. Nada.
Eu, que desejava escrever, tornei-me técnico de informática. Eu, que pretendia discotecar, passei a ouvir só a minha própria irritação. E eu, que havia escolhido o Linux para economizar dinheiro, comecei a gastar uma fortuna em horas de vida.
Resolvi comprar outro notebook. Estabeleci três mil reais como limite, quantia que me parecia suficiente para adquirir uma máquina capaz de executar duas atividades inventadas antes de Cristo: como eu disse, escrever e fazer música.

Na foto, a juventude desperdiçada. Hoje, a aposentadoria comprometida (Não sou eu. Imagem meramente ilustrativa).
Santa ingenuidade. O mercado de computadores desses tempos é um sistema de extorsão consentida. Por três mil reais, oferecem-nos um processador razoável acompanhado de uma tela miserável. Se a tela presta, a bateria não presta. Se a bateria presta, falta memória. Se tudo parece prestar, descobre-se que o equipamento custa cinco mil reais.
Iniciou-se uma obsessão (Odeio o termo hiperfoco. É raso, normal, mais do mesmo. Demonstra falta de vocabulário e de boa leitura. Bom mesmo é “flor de obsessão”). Passei a estudar processadores com um fervor que jamais dediquei às Escrituras. Aprendi a distinguir núcleos de threads, memória soldada de expansível, chips terminados em U, em H. Descobri que existe uma infinidade de computadores e que nenhum deles é capaz de satisfazer um homem que possui apenas três mil reais e a vontade de usar apenas o Libre Office.
Foi então que apareceu o MacBook. A princípio, repudiei a ideia. Um MacBook! Eu, que pretendia recuperar um Compaq abandonado, cogitava entregar uma pequena fortuna à Apple, que os sacramentos exigem cartão de crédito minimamente parrudo e seus fiéis confundem a ausência de portas USB como uma demonstração de elegância.
Mas o maldito era bonito. E leve. E silencioso. E tinha uma bateria que não precisava ser alimentada de meia em meia hora. Quanto mais eu procurava defeitos, mais encontrava qualidades. Quanto mais encontrava qualidades, mais me incomodava o preço.

Toda grande tragédia tecnológica começa com alguém dizendo “ainda dá pra usar”.
Passei dias elaborando argumentos contra a compra, enquanto consultava as condições de parcelamento. Me tornei um pária, um homem defendendo a castidade dentro de um bordel.
Assim, em uma sequência de decisões perfeitamente racionais tomadas por um completo imbecil, resolvi: Que se dane. Vou comprar um MacBook em mil vezes.
Pois descanse em paz, meu bom e doce Compaq. Tentei, você mesmo viu. Mas desisto e me entrego. Terei um computador excelente para escrever sobre a obsolescência programada, os vícios do capitalismo e a falência da civilização ocidental. Tudo isso enquanto me mato de trabalhar para pagar esse capricho em nada suaves prestações.