Pedaços de tempo, lapsos de sentido, memórias pixeladas. Diário visual de um mundo em fragmentos.
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(Este número saiu atrasado porque no domingo eu estava em um centro cirúrgico, inserindo parafusos em meu joelho esquerdo)
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Cheiro de mofo. Posso amar uma pessoa pelo cheiro, posso odiar uma pessoa pelo cheiro. Os adores são importantes para mim. Aparecem como uma forma de conhecimento anterior às palavras. Porque antes de saber quem uma pessoa é, meu corpo já pode aproximá-la ou recusá-la. Minhas relações não são construídas apenas por ideias, valores ou histórias: também pertencemos ao mundo animal, sensorial, involuntário. O afeto não é inteiramente racional. Podemos admirar alguém e, ainda assim, sentir desconforto com sua presença física; ou gostar de alguém quase imediatamente porque seu cheiro parece familiar. O corpo toma decisões que a consciência só tenta justificar depois. Amor e aversão não começam necessariamente no pensamento. Às vezes, começam no ar. O cheiro é a memória mais invisível que uma pessoa deixa no corpo da outra.
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Ainda sobre cheiros: Alguém abriu uma marmita. Bife preso em uma Tupperware misturado com algo cítrico como Red Bull. O mundo não chega primeiro pelos conceitos, mas pelo meu nariz. Carne guardada, plástico aquecido, bebida energética. Um pequeno choque sensorial dde carne que encontra o perfume químico da bebida. O cheiro como personagem.
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Uma mulher lê um livro e enxuga discretamente as lágrimas. A cena me comove. O poder da literatura de desfazer, por alguns instantes, a fronteira entre a vida imaginada e a real. A mulher permanece sentada no mundo, mas alguma frase a transportou para outro lugar. Uma lembrança? Uma perda? Uma possibilidade que nunca viveu? Sei que livros não criam necessariamente a tristeza. Apenas encontram uma tristeza que já estava nela e lhe oferece uma forma. Leitura é uma intimidade ocorrendo em público. Ao redor, a vida continua indiferente, enquanto dentro dela algo desmorona ou se reorganiza. Só Deus sabe. A discrição também revela a tentativa de preservar o próprio mundo emocional. Ela não quer necessariamente esconder fraqueza, apenas quer proteger algo que considera íntimo demais para ser observado. Enxugar a lágrima rapidamente é recuperar a compostura sem interromper a experiência. Mas a cena também pertence a quem observa. Sim, me pertence. Não conheço a mulher, o livro, o motivo das lágrimas. Ainda assim, por um instante, percebo nela uma vida interior tão complexa quanto a minha. A lágrima que transforma uma desconhecida em alguém misteriosamente próxima. Aquela cena mora permanentemente nos campos flóridos das minhas boas memórias.
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Naima, do Coltrane, é um deleite. E existem diversas versões dela de outros músicos, todas iguais, mas, ao mesmo tempo, incrivelmente diferentes, repletas de nuances que cada artista dá. É possível fazer uma playlist inteira, sem enjoar, de uma música só. Ok, fiz! Só que não considero uma playlist de uma música só, mas um catálogo de maneiras diferentes de habitar a mesma beleza. Naima é como um clipe de uma manhã de segunda, pós dias orgíacos dos bêbados e viciados, que perambulam pelas ruas às 7h da manhã
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Sobre a odisseia do Nolan: Vamos procurar roupa para lavar? Ajudar a melhorar o mundo de alguma forma prática? Um mito fundador não vem com manual de conservação. Não há uma cláusula dizendo que seus personagens devem permanecer eternamente iguais, como móveis de museu ou apresentadores de telejornal. Durante mais de dois mil anos, o Ocidente fez justamente o contrário. Os gregos recontavam os mesmos mitos e mudavam tudo o que julgavam necessário. Virgílio mexeu em Homero. Dante sequestrou Ulisses e lhe deu outro destino. Joyce levou a Odisseia para Dublin. Margaret Atwood entregou a história a Penélope. O teatro, a ópera e o cinema vivem disso: pegar uma narrativa conhecida e cometer novidades contra ela. A força de um mito está justamente em sobreviver ao que fazem com ele. Mas, neste caso, toda a indignação parece ter uma explicação menos literária: colocaram uma atriz negra no papel de Helena. O resto é curso intensivo de mitologia para disfarçar o incômodo. E era exatamente o que Nolan queria: gente promovendo de graça um filme que já está lotando as salas.
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Charlie Parker escreve seus solos na realidade. Tudo que é humano e urbano combina com sua verve eufórica. É a vida em solos intermináveis de saxofone. Música carregada de excessos, velocidade, inteligência, inquietação. É como se a cidade pensasse por meio dele. O bebop oferece uma forma organizada para o caos: muitas notas, mudanças rápidas, tensão e impulso, mas tudo sustentado por domínio técnico. Euforia e uma energia nervosa convertida em linguagem. Os “solos intermináveis” são o meu desejo de que a vida não se encerre numa forma fixa. Improvisar é minha palavra preferida. A recusa por respostas definitivas. Cada frase musical abre outra possibilidade, como o pensamento quando está especialmente vivo. Ouvia Ko Ko enquanto
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Trabalhar no centro de São Paulo tem suas delícias e agruras. Encontra-se lugares e figuras inimagináveis. Há todo tipo de itens para comprar. Mas, nunca, jamais, olhe para o chão se estiver indo almoçar. São Paulo é uma síntese do mundo: beleza e repulsa, descoberta e desgaste, abundância e abandono coexistindo no mesmo quarteirão. As “delícias e agruras” não são opostos, mas partes inseparáveis da experiência. A cidade oferece tudo, mas cobra do olhar certa capacidade de seleção. Porque para continuar desejando o almoço (e talvez para continuar amando a cidade) é preciso escolher para onde olhar. A consciência absoluta de tudo o que existe ao redor poderia tornar a vida impraticável. Viver também exige filtros.
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Fiz aniversário. Envelhecer traz consigo certa urgência: a sensação de que, a qualquer momento, a realidade vai tocar fundo em minha vida. Enquanto isso, não posso deixar de agradecer pelos bons momentos e pelas grandes coincidências, essa mágica e generosa aleatoriedade que alguns interpretam como manifestação divina, mas sobre a qual só terei certeza quando transcender esta realidade. Até lá, resta-me viver de maneira presente e radicalmente consciente. Viver, afinal, é algo muito simples: basta compreender que o cotidiano e o sublime são nomes diferentes para uma mesma graça. Quando se enxerga assim, tudo muda.
Boa recuperação!
E concordo demais com o que escreveu sobre A Odisseia.