A névoa chega e possui. Simplesmente toma, envolve os postes como um pensamento ruim que você tentou engolir e ficou no meio do caminho, aquela luz âmbar de solitário profissional, nenhum posto de gasolina, nenhum bar, só o poste e sua vocação triste de iluminar o nada poroso de uma noite que não quer ser noite nem dia.
E os músculos.
Os músculos tremem como se tivessem uma agenda própria, um sindicato interno. Nós vamos tremer agora, decidiram eles. Você pode continuar com seus problemas, com sua lista, com seu inventário kafkiano de pendências, nós vamos fazer nossa parte. E fazem. Tremem com uma dignidade que você não consegue imitar acordado e consciente, uma vibração de coisa viva que não leu nenhum e-mail hoje, que não deve nada a ninguém, que existiu completamente no esforço e agora existe completamente no colapso.
Isso é paz. E não é aquelas das revistas zen de gente rica de aeroporto. A paz suja e honesta de quem esgotou o corpo até ele parar de obedecer a mente.
O sofá recebe tudo isso sem reclamar. Um sofá bom é como um amigo sem ambição, está sempre lá, não cobra nada, não te pergunta como foi seu dia. O teto não tem resposta nenhuma e é exatamente o que você precisa olhar.
Esquecer os problemas é impossível, claro. Os itens da lista não desaparecem, ficam lá piscando na periferia como notificações de um aplicativo que você nunca quis instalar. Mas o corpo tremendo os empurra para o canto. Agora não, diz o músculo soberano. Agora a gente só existe.
E você deixa.
Então vem o impulso, súbito e irracional como todos os impulsos que valem alguma coisa: escrever. Escrever, com todas as dez digitais distribuídas no teclado como um pianista que finalmente chegou no instrumento certo depois de anos tentando fazer música com a boca.
QWERTY. Que arranjo absurdo e perfeito. Alguém no século XIX sentou e decidiu onde cada letra deveria morar e você, um século e meio depois, numa noite de névoa âmbar com os músculos em assembleia geral, herda esse mapa e o aceita como se fosse natural, como se os dedos soubessem sempre onde ir.
E sabem.
Os dedões não sabem. Estes, são instrumentos de sobrevivência, de tela de celular, de like apressado, de mensagem de voz que começa com “oi, tudo bem, então…” e nunca chega a lugar nenhum. Escrever com dedão é escrever em minúsculo, é a linguagem comprimida de quem não tem tempo, de quem está em pé no metrô, de quem existe em modo portátil.
Você quer existir em modo grande.
O primata aleijado escreve com dedões porque não chegou ainda (ou chegou e perdeu) a ferramenta que cabe na mão. Mas quando você deita no sofá depois da névoa e do treino e do tremor soberano dos músculos e abre o computador e pousa cada dedo no lugar certo, você regride e evolui ao mesmo tempo.
Regride ao animal que só quer usar o corpo. Evolui ao único bicho que transforma o tremor em frase de efeito. A névoa lá fora tomando os postes vagarosamente como um amante sedento. Você continua deixando tudo acontecer. Como um voyeur, apenas observo com uma satisfação que inunda a boca.
Tem algo obscenamente íntimo em estar exausto assim, os músculos ainda em debate, a pele levemente salgada, o corpo inteiro numa espécie de rendição que não tem nada a ver com derrota.
A sexualidade do cansaço honesto, o animal que sobrou depois que a performance acabou, deitado e real e quente como pão, sem nenhuma armadura, apenas a carne que fez seu trabalho e agora respira fundo no escuro âmbar enquanto ela, a névoa, faz o que bem entende com as coisas que ficam paradas e rígidas tempo demais.
É você que faz tremer o chão… Nas madrugadas, diria Lau.
Eu quero ver o Sol
Me deixa ver o Sol
Que eu cansei de prédio
Que eu quero aparecer
Que eu preciso arder
Sem tédio
Em sua casa
Na sua cama semi arrumada
Em sua casa
Na sua cama semi arrumada
Você é a razão
Mas não tem dimensão dos fatos
Não quero te falar mas
Te acho foda pra caralho…
Sensacional cara! Por alguns instantes, achei que seus dedos ficariam congelados depois de uma sessão de contato direto com o QWERTY – pelo menos, aqui tem sido assim, com toda essa névoa e temores.
hahaah. Não sou uma pessoa friorenta. E aqui em casa é bem quente, na real, mesmo no frio.