Capa: “Tutto Passa. Everything Passes”, de Sam Gregg.
Em junho fazem 12 anos longe de Camaçari/ Salvador/Laura de Freitas, Bahia. É basicamente a tríade de cidades de minha formação como humano.
Saí de lá com sangue nos olhos, uma certa sede de vingança, já que profissionalmente não foi um lugar que me deu boas oportunidades (apesar dos outros quesitos positivos).
Gosto de pensar que passei minha vida inteira me preparando para São Paulo, um destino há muito predestinado, onde minha história tomaria forma.Cheguei afiado, aproveitando qualquer oportunidade em agências de comunicação, das mais pilantras até as mais sofisticadas.
E vivia com saudades da Bahia.
E em um década, aprendi e realizei em quantidades absurdas. Conheci pessoas diversas. As simples, as famosas, as bonitas por fora mas feias por dentro, as bonitas por dentro e por fora. O tempo, sempre generoso e vendo meu esforço, simpatizou comigo, se expandindo para caber acontecimentos diversos e me oferecer a sensação de duas décadas em uma.
Depois, desci mais um pouco o Brasil e fiquei em Porto Alegre por 24 meses contados. Lá, desintoxiquei de tudo, ruminei as trajetórias, criei memórias, a vida passou mansa.
Mas vivia com saudades de São Paulo.
Neste ano voltei para SP. Achei a cidade barulhenta demais, suja demais, estranha demais. Prédios novos destruindo casinhas bucólicas, pessoas malucas e mal educadas destruindo o meu humor logo de manhã.
Sim, saudades de Porto Alegre, do Guaíba, da vida mansa sem a destruição da especulação imobiliária.
Na verdade, todos esses acúmulos de saudades me fizeram pensar de novo em Salvador, possibilidade que não vai acontecer de modo algum. Talvez daqui há alguns anos, quando meus 70 chegarem e a cidade ainda for aprazível.
Talvez um dia, quando os anos pesarem sobre meus ombros e a cidade ainda preservar seu charme, eu possa retornar para passar meus dias finais junto ao mar, folheando um jornal de papel em um mundo que talvez já não exista.
E entre as curvas sinuosas da vida, aprendo que a saudade não é um fardo a ser carregado, mas sim um sinal de que vivi, amei e me conectei com os lugares e pessoas que que tive a honra de conviver. Em vez de lamentar as ausências, escolho celebrar as memórias, os sorrisos compartilhados e os laços que transcendem o tempo e o espaço.
Retornar à Bahia não seria para reviver lembranças antigas, mas para criar novas histórias, com a diferença de serem emolduradas pelo sol e pelo mar.
Até lá, seguirei meu caminho com a certeza de que, onde quer que esteja, meu coração estará sempre dividido entre o passado que tanto me deu e o futuro que ainda está por vir. E quem sabe, no final das contas, a saudade seja apenas um lembrete de que as melhores aventuras ainda estão por vir. Mesmo aos 70, mesmo aos 80, mesmo aos 90.
Foda-se a juventude. Que venha a velhice risonha e brincante, repleta de boa cerveja, vinho branco, frutos do mar e maconha sem amônia.

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