Sonhei que estava em uma vernissage. Era uma casa antiga, cheia de salas e, em cada uma, havia uma instalação, uma série de quadros, alguma coisa bonita que eu nunca tinha visto. Tudo era interessante.
Eu andava pelos cômodos surpreendido com a capacidade das pessoas de pensar em coisas que a gente nem sabia que podiam ser pensadas. Teria ficado horas ali, se os outros convidados não tivessem começado a me olhar de modo estranho.
Era um pessoal rico e descolado, na proporção muito específica da Santa Cecília, o bairro mais recentemente gentrificado daqui de São Paulo. Esnobes que se vestem como pobres, mas com dinheiro suficiente para cultivar essa aparência enganosa de quem superou o dinheiro.
Ninguém me dizia nada. Só me olhavam como se eu tivesse entrado pela porta errada, esperando que eu percebesse sozinho.
Fiquei constrangido, diminuindo o passo, perdendo o prazer de estar ali. Já estava indo embora quando parei na porta e me ocorreu uma coisa bastante relevante: porra, mas isso aqui não é meu sonho, caralho? Tinha montado uma exposição inteira enquanto dormia e agora ia sair dela porque uns figurantes do meu cérebro não tinham gostado da minha presença. Podia ter me limitado às instalações, mas caprichei e incluí até um sistema de exclusão social.
Na saída, havia um pedaço de madeira no chão. Providencial. Peguei, voltei para dentro e comecei a descer o cacete naquela gente, gritando: “Tudo isso aqui é meu, seus merdas!”. Acordei de excelente humor.
Esse evento me deu uma certeza boa de que sou criativo, como qualquer pessoa pode ser. Também achei engraçado ter precisado dormir para experimentar essa confiança. Acordado, tenho opiniões, referências, comparações, coisas que abandono antes de tentar. Dormindo, fiz tudo isso acontecer. E ainda arranjei quem me intimidasse dentro dela, porque aparentemente nem inconsciente eu consigo organizar um evento sem me preocupar com o que os outros vão pensar de mim.
Conforme a manhã avançou, fui perdendo os detalhes, restando aquela frustração de saber que vi uma coisa ótima e não fotografei. Foi bom porque mostrou que preciso resolver uma questão muito pertinente a minha personalidade. Quanto da nossa avaliação de nós mesmos entregamos a pessoas cujo principal atributo é parecerem autorizadas a avaliar?
Não se dobre nunca mais.