O fim definitivo do meu home office mexeu demais com minha rotina e humor. Se antes era difícil dar a luz aos meus projetos, agora que a coisa ficou realmente feia.
A cidade voltou a me engolir todos os dias. Acordar, sair, atravessar, chegar, responder, performar, voltar. Tudo ganhou peso. O que antes era simples agora exige uma negociação secreta comigo mesmo.
Não é exatamente tristeza. Também não é cansaço comum. É uma apatia mais funda, uma falta de vontade que se espalha pelo corpo como um frio fantasmagórico. Ramifica pelos braços, pelas pernas, pela nuca, pela atenção. Fica ali, ocupando espaço, tirando cor das coisas. Um silêncio pesado instalado por dentro.
Há uma sensação de perda que não sabe muito bem o que perdeu. Talvez autonomia. Talvez tempo. Talvez a ilusão de que eu ainda tinha algum controle sobre a minha própria energia.
O home office, com todos os seus defeitos, ainda guardava um tipo de intimidade com o dia. Agora, parece que o dia pertence primeiro ao mundo, depois ao trabalho, depois ao trânsito, depois ao cansaço. Só no fim, quando sobra alguma coisa, pertence a mim.