Jacob Aue Sobol | Sabine Groenlândia Sabine Maqe. Tiniteqilaaq, Groenlândia. 2002.
Corro pelas veias da vida sangrando sorrisos doloridos. Porque eu sei que você sabe que as estrelas, neste momento, estão mortas, igualzinho aos teus olhos opacos de cor arrebol, que não brilham mais aquele esplendor recheado de esperança e possibilidades (porque uma quantidade absurda de acontecimentos, como um buraco negro, sugou até a luz).
Se ao menos soubesse que tudo é mais fácil do que parece… Esses simulacros e essas simulações que nos enganam, nos afogam nessa praia rasa que é a realidade, para nos ensinar algo útil e estúpido que funciona somente em outras possibilidades e dimensões.
E nem venha me dizer que estou fora de minha razão, pois sonhamos juntos, todos os dias, essas histórias salpicadas pela aleatoriedade, pelo caos e a morte iminente que nos espreita sem parar.
Vai ficar no pânico, em um terror imbecil por causa disso? Deixa a morte desejar sua vida na penumbra, enquanto você se deita tranquilamente em sua grama verde preferida, em sua areia fofa preferida, apertando as pálpebras, olhando o céu azul, respirando e sentindo o cheiro do seu ar de 24 graus celsius, pensando em umas contas que ainda faltam pagar. Deixa ela desejar as curvas do teu corpo, que já começaram a desenhar na pele os rios de rugas de vãs preocupações.
Deixa que ela deseje tuas mãos e teu ombro, onde a sombra se acomoda. Deixe que ela deseje a dobra do teu joelho, onde a pele é mais fina e mais íntima. Deixe que deseje o arco das tuas costas, onde o sol demora um pouco mais para aquecer. Deixe, apenas deixe, a mais temida, a mais sombria, o medo universal e fatal, invejar tua vida gloriosa, que não se farta em emudecer diante das pequenas coisas que são sublimes e que são tudo. Em alguma esquina, certamente, ela vai te beijar.
Claro que, se fosse para escolher, eu estaria em outra realidade, indo no mercado comprar umas cervejas na promoção, depois te ligando, dizendo que o vizinho do lado viajou com a família e que por isso dá para falar um pouco mais alto. E que chamei um pessoal bom para cacete e que estão chegando para ouvir umas músicas, comer umas coisas boas e beber até a bolona de fogo que queima agora mesmo no espaço surgir no horizonte. Que se quisesse, podia vir de boa pois seria a primeira noite e o primeiro dia do resto de nossas vidas e que a gente nunca, jamais, iria se entediar…
Mas, é isso, estamos em cursos de rios diferentes. Opostos, até. Só que nada me incomoda a ponto de me levar, como criança, esconder-se vergonhosamente atrás de uma cortina fina, pálida e tomada pelos raios da estrela da manhã.
Não se engane, não sou Poliana. É que a melhor faceta da minha vida é ter essa consciência simplória, mas vitoriosa, da existência mútua de nossos átomos, que já foram tantas formas, em tantos infinitos encontros, sempre em dupla, caminhando ou rastejando por este planeta agradavelmente morno, que segundo Helado Negro, terá como último som, o amor!
“Blink once, if you know me
Blink twice, if you heard me
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