De uma talagada só, escrevo para sintetizar alguns assuntos que gosto de tratar e que sempre estão orbitando essa minha cabeça confusa.
Chega um momento da vida em que tudo fica escasso. Quanto mais responsabilidades você adquire, quanto mais sobe-se de nível profissional, mais isso é custoso para o seu corpo, mais especificamente, a mente. O tempo se rareia e tudo deve ser pensado milimetricamente para ser aproveitado de modo mais dinâmico. O trabalho te dá a estabilidade desejada, mas também tira seu tempo de vida. E é com essa barganha mortal que trocamos pedaços de nossa existência por dinheiro.
Se o trabalho não te dá tempo para se alimentar, como o corpo pode levantar e trabalhar com energia todos os dias? Esse é mais ou menos meu dilema atual. Assistir a uma série, ler uma página, ler o jornal, ver um filme, é cada vez mais um momento de luxo. O pior é que preciso desses insumos para alimentar meu crânio, trabalhar com dignidade, me dar referências, criar alternativas de conteúdo, ser mais criativo.
Hoje mesmo, agora mesmo, estou aqui derramando essas penúrias de palavras porque já estamos nessa descida gostosa que é o final do ano e os eventos empregatícios vão diminuindo, o que me dá o mínimo de tempo para dar umas elucubradas, umas desopiladas boas para não ficar angustiado.
E mesmo assim, aqui estou, com pratos me esperando na pia, uma sala arrasada por brinquedos e o moleque aqui do lado insistindo em sentar ao meu lado porque ele quer trabalhar comigo. E ele não faz isso de modo educado, comedido, mas chegando com tudo, mexendo em tudo, pegando no meu espanador (odeio poeira) e fazendo ele de vassoura.
Daí eu digo, isso é para tirar a poeira, não varrer.
E ele responde: Eu quero pegar a poeira…
Nas primeiras horas da manhã, gosto de fazer as coisas ouvindo Jazz Bebop porque é uma trilha enérgica que me leva aos afazeres de uma maneira muito natural, como uma trilha de filme rápida, com o personagem executando diversos movimentos, com closes dinâmicos em objetos, mãos e ângulos. Fingir ser é ser.
Como o Bebop, é preciso se jogar nas escalas estranhas, criar sem saber para onde ou quando termina, em um improviso que dá frio na barriga, mas que, quando tudo finaliza, mesmo depois de 10 minutos de solo, se pensa como diabos consegui fazer isso? Não, não é o ideal, mas é bom sim de fazer.
Os últimos tempos me deram uma certa agonia no peito, uma ansiedade esquisita, porque tudo o que fazia estava dentro do âmbito das telas. É Kindle, é celular, é TV, é computador, caralho, meu irmão, essa porra desse mundo não tem nada mais físico?
Daí criei essa ânsia medonha, busca, vontade de potência pelo tátil, pelo ver com a mão. Bom que casou deu estar trabalhando no centro de São Paulo, ou seja, sebos, casas de vinil, de fotografia analógica, de livros com cheiro de mofo.
Comprei uma maquininha Kodak de 35mm, saio na hora do almoço para bater perna. No mesmo quarteirão, uma mundo de pessoas malucas, nóias decrépitos, bares lindamente sujos, pixos inelegíveis, uma quantidade absurda de coisas, objetos e características para serem fotografadas de modo cauteloso, porque, por mais que eu seja leonino, sou muito tímido e não quero parecer intrusivo. Consigo fazer fotos sem alterar o meio, sem ser percebido e, lógico, sem invadir intimidade de ninguém.
Tem uns jovens que ficam na frente da Galeria do Rock que eu tenho particular curiosidade em saber que diabos são: roupas que parecem mulambos, um monte piercings, rabiscos estranhos de tatuagens, como se fossem capas de bandas de black metal, principalmente no rosto, parece que passaram hidrocor de forma aleatória nas bochechas, mas com cores, muitas cores. Tem dias que passo umas 11h30 da manhã, de uma segunda-feira, e lá estão eles, fumando baseado, rindo, umas meninas são absurdamente novas e me pergunto quem são, de onde vêm, onde moram, quem são seus país, seus vizinhos, se são herdeiros e como pagam as contas.
Enfim, como me sobrou uma boa grana do último emprego, também comprei um toca-disco de qualidade, direct-drive porradão, nada de belt-drives escrotas que ficam folgadas com o tempo ou o calor. Nada de maletinha vagabunda. Tesão é conseguir juntar dinheiro e comprar algo que vai ser para a vida toda e vai te preencher a alma com o melhor.
Ando vendo salas de audição, aparelhagens de som da Jamaica, como eles usam o mínimo de tecnologia em áudio, como são analógicos, lindíssimos. Claro, culpa do sistema explorador inglês, mas ainda bem que o povo criou essa cultura do sound system que é de uma beleza enorme.
Como meu tocador ainda não chegou, estou preparando o ambiente. Limpando meus discos (meu Dummy, do Portishead, encaixotado há 10 anos, que viajou comigo para Porto Alegre e ficou morando em um box na Carlos Gomes com outros vinis, mofou por dentro, puta que pariu, novinho o desgraçado), comprando plásticos duros de capa e os molinhos internos, dando uma roupinha nova para capinhas envelhecidas.
Há sebos por aqui que parecem mundos à parte: montanhas de discos empilhados sem lógica alguma, um cheiro úmido que sobe do chão como um fantasma antigo, capaz de derrubar qualquer alérgico em poucos segundos. As capas são muito gastas e estranhas, mas carregam um certo charme, uma história, os ecos de um tempo em que a música de elevador tinha personalidade.
Perfeitos para ficarem tocando de fundo, trazendo vida à casa, nos lembrando que o tátil e analógico não deveria ser uma moda, coisa de hipster ou estilo de vida, mas algo profundamente humano, posto que precisamos sentir o mundo, tanto por dentro quanto por fora.
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Na real, esse texto é sobre a despreocupação dos jovens de rostos tatuados, que fumam baseado às 11h da manhã, uma riqueza imensurável.
Breve mostro as fotinhas na kodakinha.
acho que um dos meus livros favoritos (eram os deuses astronautas? do erick von daniken), basicamente um dos que mais me marcaram (e alugou um triplex na minha cabeça na época), comprei em um sebo quando era apenas uma estudante despreocupada. tempo bom. a tranquilidade em folhear livros antes de escolher eles, tendo como parâmetro quantas manchas de café ou dedicatórias tinham. a não ser que estivesse com alguém que realmente te conhecesse, não tinha ninguém para te confirmar se você gostaria da escolha. era por conta e risco. bom demais!
é doido parar pra pensar em que momento a gente esqueceu dessa despreocupação, por mais óbvio que seja pensar que fomos engolidos pelas responsabilidades da vida. e com filhos, ah, a urgência não vem só do que paga as nossas contas né? 😂
curiosa pra ver o que essa kodak, nas tuas bateções de perna — um respiro no meio do caos? — vão criar!
Que post delicinha de se ler, também ando um pouco descaralhada da cabeça de passar muito tempo com telas, seja pra trabalho ou lazer. Tô sentido falta do analogico tambem, esquecer que eu tenho um celular, viver as coisas mais no fisico. Acho que vou preparar umas coisas desse tipo nesse fim de ano quando a coisa toda desacelerar.
Essas suas caminhadas no meio do caos de SP me deixaram curiosas, também sou dessas de ficar imaginando pq certas pessoas estao em certos lugares e o que tem mais alem do que consigo ver. E claro, curiosa pra ver suas fotos, compartilha aqui, por favor 🙂
Que bom que gostou. Escrevi de verdade sem parar. Só soltando os assuntos. Melhor coisa é praticar atividades fora de tela, é outra vida.
Adoro observar, caminhar sem rumo. Tem até nome pra isso, né? O tal do Flâneur… Até andar de modo aleatório dá para fazer arte.
Alias, tudo o que é feito com as mãos, de modo físico, por mais simples que seja, é uma espécie de arte.
Façamos arte, então!