Nos últimos dois meses, acordo antes da minha alma voltar para o corpo para ir à fisioterapia do joelho. É o tipo de compromisso que me faz sentir um cidadão funcional, ainda que eu continue em um jetlag bem pessoal, pelo menos, até a terceira esquina.
Como a clínica fica longe o suficiente para eu não romantizar uma caminhada (e evitar o desgaste do meu podre e pobre joelho), lá vou eu depender do meu táxi diário, ritual íntimo que mistura deslocamento, introspecção e leve aposta emocional em desconhecidos.
Na semana passada, entrei num carro dirigido por um rapaz jovem muito, muito silencioso. Um silêncio profissional, corporativo, que envolve o ambiente. E eu, naquela versão matinal que ainda está instalando o próprio sistema operacional, fiquei apenas olhando pela janela, hipnotizado pela coreografia do trânsito, tentando descobrir em que momento do percurso eu finalmente me tornaria uma pessoa real.
Antes de prosseguir, falo rapidamente aqui sobre o título. No meu arquipélago de pensamentos desalinhados, convivem criaturas improváveis: coelhos (não confio neles), pessoas que passam a vida tentando ser sósias de alguém e a instituição global do Tiny Desk (o Acústico MTV dos novos tempos). Não pergunto por quê. Nem quero saber. Algumas coisas a gente apenas aceita.
Voltando, dentro do carro, algo rompeu minha bolha sonolenta em forma de som. Algo tão peculiar que parecia uma experiência auditiva encomendada por um inimigo.
Uma mistura improvável de gospel melancólico, música de toureiro sem tourada e um fado português que desistiu do fado no meio do caminho. Era como se Madredeus tivesse sido sequestrado por uma trupe de dramaturgos hiperdramáticos e obrigado a gravar algo “moderno”.
No começo, achei que meu cérebro estava distorcendo a realidade, porque de manhã tudo me parece mais metafísico. Mas não, era a música mesmo. Ansiosa, cheia de camadas que não conversavam entre si. A curiosidade venceu o bom senso e, como sempre, abri o Shazam para revelar o culpado.
E eis que aparece: “Lux”, Rosalía.
Levei um susto. Gosto da moça. Motomami me pegou pelo colarinho da alma e me deixou cantarolando mentalmente por semanas. O que eu estava ouvindo naquele táxi era chato, muito chato. Como se alguém tivesse encomendado uma trilha sonora contemplativa para um vinho de mesa barato chamado Pretensão.
E olha que eu fiz o famoso blind test: não sabia o que era, não sabia quem era. Foi bom. Evitou que eu tentasse justificar o injustificável só porque já tenho carinho pela obra da artista. Meu ouvido foi honesto antes que meu afeto me traisse.
O problema é que vivemos nessa época estranha em que discordar virou quase como ataque pessoal. Todo mundo resolveu que o álbum é genial, transcendental, obrigatório. E eu, por ousar dizer em alguns lugares “gente… não desceu”, virei quase persona non grata. O herege. O ingrato no culto do hype.
Ah, é que você não entendeu…
Ah, é que é conceitual…
Ah, que ela está estudando flamenco…
Ah, é que por causa dela aumentou não sei quantos por cento de jovens que agora ouvem música clássica…
(Essa última justificativa me leva direto para aquele delírio coletivo dos anos 2000, quando diziam que Harry Potter tinha feito “a juventude voltar a ler”. Uma fofíssima ficção. A parte mais mágica de toda a saga.)
Antes que alguém me atire pedrinhas conceituais, estou falando só da minha percepção, entidade falha, subjetiva e sensível às minhas próprias manhãs mal dormidas. Posso estar errado, muito errado. Talvez eu tenha pego o trecho menos inspirado da música, talvez eu estivesse num humor que distorceu tudo, talvez o alto-falante do táxi tenha assassinado frequências essenciais.
E, principalmente, não estou criticando a artista, de verdade. Só estou compartilhando o que aconteceu naquele microcosmo de silêncio matinal, vidro embaçado, fisioterapia à vista e um álbum mais próximo do confuso do que de algo conceitual.
Tudo na vida, meus anjos bons, é sobre percepção. E existem várias e várias camadas. Não se apeguem a apenas uma. A minha, como eu disse, pode estar torta, enviesada, incompleta e tudo ok.
A graça, afinal, está justamente em não fingir que somos infalíveis enquanto tentamos entender o mundo (e os álbuns) antes do café.
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