Antigamente, muito antigamente, quando os computadores faziam ruídos estranhos em madrugadas quentes, eu gostava de escrever crônicas a partir de músicas. Hoje, do nada, me veio essa vontade com Honey Be Good, do The Bible. Saiu numa tapada só. Das delícias de se ter um blog: a liberdade de parir umas bobagens boas simulando adolescência. A música está no final do texto.
I. Sobre os que partem sem aviso
Elas dominam a arte sutil do desaparecimento gradual: respondem as mensagens com menos frequência, substituem pontos de exclamação por pontos finais, trocam “saudades” por “tchau”. Não há confronto e nem lágrimas, só uma erosão silenciosa.
O mais cruel não é a partida em si, mas a elegância com que executam o fim. Deixam você se perguntando se imaginou toda a intimidade que houve, se os momentos especiais existiram mesmo ou foram apenas uma ilusão sua, uma necessidade desesperada de conexão projetada sobre alguém que já estava, mentalmente, em outro lugar.
II. O protocolo secreto dos corações blindados
Existe um manual não escrito para quem decide não se machucar mais: nunca seja o primeiro a dizer “eu te amo”, nunca mande duas mensagens seguidas, nunca admita que passou o fim de semana pensando naquela pessoa. É uma coreografia da indiferença, ensaiada até ficar natural.
Esses corações blindados aprenderam que vulnerabilidade é um luxo caro demais. Preferem o jogo da sedução ao risco da entrega, a conquista à constância. Sabem exatamente quando recuar, quando avançar, quando deixar o outro na incerteza. Não é maldade, é autopreservação.
O irônico é que essa blindagem, criada para proteger, acaba se tornando uma prisão. Se tornam tão bons em não se machucar que esquecem como se curar. Experts em partir que nunca aprendem a ficar.
III. Anatomia de um quase-amor
Os quase-amores são as criaturas mais perigosas do bestiário sentimental. Não são relacionamentos, mas também não são apenas amizades. Existem nesse limbo confortável onde tudo é possível e nada é prometido.
São feitos de mensagens que chegam sempre na madrugada, encontros que “acontecem” por acaso, mãos que se tocam “sem querer”. Uma dança elaborada de aproximação e distanciamento, em que ambos sabem os passos mas fingem que estão improvisando.
O quase-amor é cruel porque alimenta a esperança sem nunca saciá-la completamente. É a fome controlada do sentimento, o suficiente para manter interesse, insuficiente para gerar compromisso. E quando finalmente termina, deixa uma saudade estranha como o diabo do que nunca foi de verdade.
IV. O último a saber
Há sempre alguém que demora para entender. Enquanto o outro já refez os planos, mudou a playlist, arquivou as fotos, esse alguém ainda está tentando decifrar sinais, buscando esperança em vírgulas e reticências.
Não é ingenuidade, é a recusa em aceitar que alguns finais não vêm com cerimônia. O interesse simplesmente se evapora, como álcool no ar, deixando apenas o cheiro fantasma do que um dia foi intenso.
V. Epitáfio para os desencontros
Somos especialistas em nos desencontrar. Experts em chegar cedo demais ou tarde demais, em querer quando o outro já não quer mais, em partir quando o outro finalmente decide ficar.
Tudo é uma sucessão de timing errado: aquele que te amou quando você amava outro, aquele que você amou quando já amava alguém, aquele que poderia ter acontecido se vocês tivessem se conhecido em outra época, em outra dimensão, em outras versões de si mesmos.
A mesma maldição recai sobre todos nós: essa capacidade infinita de errar o momento certo e, ainda assim, continuar tentando. Como se cada desencontro fosse apenas ensaio para o encontro que ainda está por vir, numa próxima vida, numa próxima chance, numa próxima vez em que o coração resolver sincronizar com o mundo.
O amor não é tanto sobre encontrar a pessoa certa, mas sobre ser a pessoa certa no momento certo.
E esse momento, meu bem, é sempre mais raro do que imaginamos.
Apenas seja boa em ser má. Como toda garota deve ser.
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