Sempre me pergunto por que consumo cultura. Mas acho que essa seja uma questão tão boba quanto se perguntar por que se come.
Cultura é uma espécie de alimento que o corpo finge não sentir necessidade. Mas que precisamos.
A fome cultural não produz ruídos audíveis, apenas um desconforto surdo, uma inquietação que nos empurra em direção aos cinemas, livrarias, aos discos arranhados… A gente devora essas coisas porque algo em nós precisa ser tocado.
Essas ideias vieram à mente, claro, na madrugada de sábado para domingo, na quinta ou sexta garrafa de Goose (Me patrocina!), assistindo “O Eclipse” (1962), de Michelangelo Antonioni.
E sim, é chato, parado como o diabo, um teste de paciência. Mas uma vez assimilado, já era, é lindo.
O que é preciso entender é que filmes antigos, ou aqueles que a crítica batizou de “cinema de autor”, funcionam como uma espécie de meditação secular. São exercícios de respiração para a alma, momentos em que o tempo se dilata e permite que vivenciamos um ritmo diferente do mundo.
Enquanto assistia, mandei mensagem para mim mesmo no Whatsapp para desenvolver as ideias depois (escreva bêbado, edite sóbrio):
Por que ver O Eclipse?
1 – Porque é sobre o vazio, e isso é muito atual.
Mostra personagens vagando entre sentimentos e prédios de concreto, numa Roma que cresce como cidade e esfria emocionalmente. O amor ali é tênue, incerto. Mas o grande lance é que Antonioni não filma o que acontece, mas o que falta.
2 – Porque a estética é uma aula de direção.
Cada enquadramento é milimetricamente composto. Cada silêncio, sombra e arquitetura opressiva tem função. A câmera capta o tédio, a espera, a distância entre as pessoas com uma precisão que parece pintura moderna. Você pode pausar em qualquer frame e emoldurar. É sério. Fiz isso diversas vezes para ir ao banheiro e, quando voltava, ficava viajando na composição do enquadramento.
3 – Porque Monica Vitti.
Ela está no centro de tudo. E mesmo quando não está, ela está lá. É uma presença etérea, um olhar pensativo, de entrega contida. A personagem traduz o desconforto de estar no mundo quando tudo parece fora de lugar.
4 – Pensar cinema como meditação.
Um filme como esse te mostra o quanto estamos dependentes de eventos dinâmicos a cada segundo. E achar chato e enfadonho é a prova disso. Assistir a esses filmes, mesmo que em partes, é uma prática que exige paciência, mas que recompensa com insights sobre a condição humana que dificilmente encontraríamos em narrativas mais convencionais.
Assista filmes “parados”
Em uma época em que somos bombardeados por conteúdos que competem desesperadamente por nossa atenção, no filme encontramos algo simples e cada vez mais raro: tempo. Tempo para observar, para refletir, para simplesmente existir na companhia de personagens que, assim como nós, estão tentando decifrar o enigma de estar no mundo.
Acho que é isso que buscamos quando consumimos cultura: não respostas óbvias ou uma função prática, mas uma espécie de companhia (um amigo/amiga fantasma?) qualificada para nossas perguntas (viajei demais aqui?).
E como toda boa meditação, ao final, somos devolvidos a nós mesmos para esta realidade maluca um pouco mais conscientes do mistério que carregamos.
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