Ghost World: Para Enid, ser cínica era mais fácil do que admitir que queria pertencer.
Este post é um troço que venho matutando faz dias mas que só agora tive um brilho, material e respaldo filosófico suficiente para argumentar sem que me reduzam apenas como rabugento maluco.
A coisa toda começa quando fui trabalhar no meu emprego atual, há três anos, repleto de gente jovem. Pessoas na casa dos 20/25/27/ anos. Não são tão jovens assim, mas né, galera ficou por muito tempo na casa dos pais e tem um comportamento leite com pera bem parecido. Observador de faunas que sou, percebi um padrão de conversas, atitudes e, deus me cegue os olhos, estilos de roupa.
Mais um menos como esse rapaz aqui, que está viralizando por causa da voz. Clique na imagem, assista e depois volte para ler o resto.

(Eu odeio a calça desse desgraçado. Meus olhos sangram com essa moda ridícula há há há)
Ah, perai. Veja mais esse antes de continuar.
Maravilha, agora só mais um para você entender o meu ponto (está em inglês, mas tenho certeza que você vai entender pelo menos o assunto). Se não entender, segue o baile logo abaixo.
Visto/dito tudo isso, pega a visão: O medo de tentar é o novo hype!
O cara neste último vídeo é o poeta, ensaísta e romancista vietnamita-americano, Ocean Vuong. Ele discorre sobre algo que não sai da cabeça: muita gente jovem hoje tem vergonha de tentar.
Não é aquela nossa vergonha de errar, mas de parecer que está tentando demais. Agora, advinha o motivo: porque esforço virou sinônimo de desespero. Porque se importar virou sinal de fraqueza. Porque é mais seguro parecer cínico do que parecer sincero.
E eu achando que o problema era comigo!
O rapaz do primeiro vídeo, Luiz, diz que não usa redes sociais. Nenhuma. E que não vê utilidade nelas. Ao mesmo tempo, quer ganhar bem, fazer arte, viver de música. Mas não tem um plano. E se afasta do único caminho que poderia dar alguma visibilidade ao que faz. Porra, filho da puta, até os maluco drogado dos Sex Pistols tinham um plano, seu burro!
Ok, isso é um papo de jovem desde os anos 60. O meu incômodo é que isso não é legítimo, mas performance. Do meu lado esquerdo nos dias presenciais de trampo, tem uns 4 desses gala rala, do mesmo tipo. E me dá muita preguiça. Porque…
…Não é desinteresse. É blindagem. Eles são apenas cínicos e medrosos.
Se expor exige esforço. E esforço hoje é confundido com carência, com vergonha, com falta de “autoconsciência estética”. Coisa de velho, coisa de tio.
(Abrir um parênteses aqui sobre os termos discriminatórios e etaristas: insulto a gente devolve com insulto. Vou te ensinar: chamar alguém de “tio” virou um jeito socialmente aceitável de jogar a pessoa no depósito dos irrelevantes. É aquele carinho enviesado, quase um deboche passivo-agressivo. Rogério Skylab, com seu senso de absurdo, rebate essa infantilização forçada com um tapa metafórico: “não me chame de titio que meu pau fica duro”. É escroto para um caralho, mas é uma bela paulada para lembrar que idade não anula potência, nem a criativa, nem a sexual, nem a existencial. Não aceite que te chamem de velho, cringe, sei lá que diabo, como se isso fosse sinônimo de inofensivo, porque não é. É igualmente escroto pra caralho).
Enfim, o lance é que tentar virou cringe. O cinismo, por outro lado, agora é a fantasia social da inteligência. Garante um lugar na roda, mesmo quando você não tem nada a dizer.
Só que o desejo continua ali. A vontade de criar, de ser visto, de participar. Mas ela se esconde atrás da ironia, da negação, do não-me-importo.
Fingir que não liga virou mecanismo de defesa. E Luiz não está sozinho. Tem muita gente evitando o palco por medo de vaia, mas torcendo por aplausozinho na entoca.
Só que arte, vida, coragem, tudo isso exige uma dose alta de exposição. Quem não entra no jogo, não perde. Mas também não cria. E não vive. Engraçado como o medo de ser julgado por tentar se tornou mais forte do que a vontade de fazer dar certo.
Em suma, a postura do menino aí das calças ridículas ao se distanciar completamente das redes sociais e, por consequência, de um caminho claro para suas aspirações artísticas, pode ser vista como um reflexo da “cultura do cringe” e do medo de julgamento que levam muitos jovens a “performar cinismo” ou a se retirar de um esforço autêntico para parecerem “descolados” ou indiferentes, conforme descrito por Vuong.
Pense nisso como um artista que se recusa a expor sua obra em galerias porque teme a crítica, mesmo que ele anseie por reconhecimento. A recusa em expor não é apenas uma preferência (nunca é preferência, aposto o meu rabo pra um jegue viúvo que isso é papo, cheiro mole!), mas também uma barreira que impede o “esforço sincero” de ser visto e, em última instância, pode projetar uma imagem de desapego ou “ser legal demais para se importar”.
Por isso, jovem Padawan, leia os meus lábios e preste atenção em minha língua bífida: não seja babaca. Ser quem você é, conversar com estranhos, rir, se interessar por pessoas, não é coisa de velho, nem de cringe, nem qualquer desgraça de termo estadunidense importado que você usa na sua performance tirando onda de anticapitalista. Não há problema algum em admitir que Aftersun não tem nada demais.
O esforço sincero e sem máscaras continua sendo a coisa mais bonita e revolucionária que existe. Mesmo que ninguém curta.
Porque, no fundo, todo mundo quer ser adorado.
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às vezes vale muito mais a pena fazer o que a gente quer e ignorar a opinião alheia do que se esforçar pra se encaixar fazendo algo que a gente nem quer. é tudo sobre não ligar pros outros, ao invés de não ligar pra si mesmo :^)
Com certeza. Seja você mesmo é o melhor conselho que alguém pode receber na vida.