No clipe de Wide Open, do duo britânico The Chemical Brothers, vemos uma mulher dançando sozinha em um galpão industrial. A câmera acompanha seus movimentos contínuos enquanto, pouco a pouco, seu corpo começa a se transformar. Primeiro as pernas, depois os braços, o torso, até que ela se torna uma estrutura oca, como se estivesse sendo desmanchada em filamentos vazios. Ela continua dançando, mesmo enquanto desaparece.
Lançado em 2016, o vídeo é uma metáfora poderosa. A letra, interpretada por Beck, diz: “I’m wide open, but I’m not letting you in.”
Ou seja: estou aberto, mas não disponível. Presente, mas em ruínas.
É uma imagem visualmente bela, mas emocionalmente incômoda. Uma dança que expõe o que a gente faz, muitas vezes sem perceber, em nome do afeto: desaparecer devagar.
O clipe me voltou à mente depois de uma conversa sobre vínculos afetivos que parecem familiares demais. Não familiares como conforto, mas como repetição. Quando você encontra alguém e sente que há ali uma rachadura semelhante à sua, algo reverbera. Algo profundamente antigo, íntimo, acende.
Nosso primeiro modelo de amor, afinal, são os pais. E, queiramos ou não, crescemos aprendendo a amar do jeito que fomos amados ou do jeito que aprendemos a sobreviver à ausência desse amor.
Quando adultos, seguimos encontrando essas dinâmicas. O corpo não esquece. O inconsciente sussurra: “isso aqui você conhece.” Pode parecer carinho, mas é carência. Pode parecer conexão, mas é o eco de um afeto mal resolvido.
E nessa hora, algo dentro da gente precisa decidir. Repetir ou romper. Dar ao passado uma nova chance ou, finalmente, deixá-lo descansar.
É fácil confundir esse reencontro de rachaduras com amor. Fácil pensar que, se a dor do outro parece com a nossa, isso é um sinal. Mas pode ser só a armadilha de sempre: tentar curar no outro aquilo que nos formou. E, assim como na música, podemos dançar até não sobrar nada.
Há silêncios que se encaixam como velhos casacos esquecidos em um guarda-roupa.
Há olhares que acendem fósforos antigos.
E há você, no meio disso tudo, tentando não confundir lar com labirinto.
Leonard Cohen nos avisou: o verdadeiro amor não é aquele que remenda suas falhas, mas o que te mostra, com gentileza, que rachaduras também deixam passar a luz.
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A Sonoya Mizuno! Ela sempre aparece nos filmes do Alex Garland, como na série Devs. Eu lembro desse clipe, mas não lembrava que era ela.
Isso! Dia desses eu revi e me surpreendi também. Engraçado isso né? Está mais conhecida agora porque tá no prequel House of The Dragon.
eu escrevi um comentário enorme e ele não me deixou postaaaaaarrr. mas ouvi a música e adorei o conjunto dela com o clipe!
sobre relacionamentos e o amor, acho que isso traz à tona a necessidade de olhar pra dentro antes de olhar pro outro buscando alguma coisa; é importante entender o que a gente é, como está, o que precisa e o que entende do mundo. assim, encontrar em alguém um complemento pra si, e não uma parte “essencial” e nem uma reprodução de um modelo de relacionamento ou amor, é um pouco menos complicado… mas a gente acaba aprendendo com a tentativa e erro. afinal, pra que serve a vida a não ser viver e aprender? hahaha
beijo, deniac!
É exatamente isso. O interessante é que, mesmo a gente sabendo disso às vezes s deixa levar pelo nosso próprio canto da sereia. Mas o importante é fazer alguma coisa legal com essas experiencias. Afinal, grandes músicas, filmes e séries nasceram de pés na bunda gigantes! 😄