Começando com uma curiosidade: A palavra “texto” vem do latim textus, que significa exatamente tecido, trama, o ato de entrelaçar.
A metáfora original da linguagem é essa: fios que se cruzam até virar algo que se sustenta.
Dito isso, tem dia que eu penso: pra quê escrever? Ou melhor: o que eu vou “tramar” hoje?
Já tem texto demais no mundo. Livros demais, poemas demais, legenda demais, post demais, e eu aqui, querendo estar entre os demais.
Então lembro que o texto não é sobre acabar. Não é sobre fazer sentido. Não é sobre legado ou ser bonito. Texto é troço que você solta no ar, que se agarra em alguém, ou não.
E sim, por vezes, nem você sabe direito o que queria dizer, só que precisava dizer. Texto é como a pele: vai mudando de textura, engrossa, racha, cicatriza.
E é engraçado, porque tem gente que acha que o texto precisa sempre ser aquele tecido bem costurado, com as bordas alinhadas, o ponto bem dado, um acabamento que faz parecer que quem escreveu sabia exatamente o que estava fazendo.
Balela.
Acho que o texto mais honesto é aquele que fica meio frouxo, meio solto, com umas linhas sobrando pros cantos. Aquele que você escreve sem saber se vai servir pra alguém, mas mesmo assim joga no mundo do mesmo modo quando alguém larga uma blusa velha no varal e deixa o vento decidir.
E sim: não serve pra nada. Nem você lê depois. É só um fiapo que se perde no meio do dia, entre abrir a geladeira e deixar o café esfriar. E qual o problema?
Mas como eu disse, também pode ser que alguém trombe com ele, tropece nessa palavra esquecida, e de repente alguma coisa faça sentido. Não o texto inteiro, mas ao menos uma parte, uma frase, uma palavra. Ou só o jeito como você quebrou o parágrafo (a mais pura e leve poesia que só consegue “ler” quem tem a lente certa).
É só isso que a gente tem pra dar. Esse pedaço meio torto da nossa pele, essa textura meio falhada da nossa voz. E na boa, nem precisa mais do que isso. Só deixar que exista já é bom demais.
Sabendo, pelo menos, de uma coisa que eu não canso de repetir, mesmo que nunca soe clássico: eu vejo valor e me importo. Mesmo quando ninguém pediu. Mesmo quando ninguém respondeu.
E isso, olha só, já é texto suficiente pra mim, pois eu mesmo estou sempre aqui, escrevendo fiapos soltos, em linhas que se cruzam, se perdem, ou encontram quem tropece nelas.
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Texto é pele
o texto não é coisa pra ser costurada
não é pra arrematar
não é pra pendurar na parede
o texto é pele
que arrepia
que sangra
que escama
e se refaz sem pedir licença
não tem começo, meio, fim
é só esse algo que vai
e volta
e morde
é o toque que fica na memória
mesmo depois de ter saído correndo
mesmo depois de ter dito:
não quero mais
o texto é a dobra que não alisa
o vinco que não passa
a mancha que não sai
é o que você deixou escrito
sem querer
na toalha da mesa
na parede do banheiro
na borda do copo
o texto é o que sobra
quando o resto já se foi
não precisa ser bonito
não precisa ser certo
não precisa nem ser lido
só precisa ser
eu estou aqui
nesse pedaço de coisa escrita
nesse fiapo de voz
nesse eco meio torto
e se você ouvir (ou não)
tanto faz
o que importa mesmo
é que eu me importo
pois há em mim amor por tudo o que eu acho que é poesia
e isso
não desfia nunca.
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