(Aconteceu com a amiga de uma amiga, essa entidade conveniente que invocamos quando a narrativa é íntima demais para ser nossa, mas autêntica demais para ser ficção.)
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A casa estava limpa demais.
Limpa como quando alguém morre. Limpa como se a sujeira fosse quem tivesse puxado o gatilho. Vidros reluzindo, almofadas com TOC, cheiros artificiais cobrindo tudo o que um dia foi humano. Quando lavam tudo, até o que não tem culpa.
Foi aí que ela soube. Antes de abrir a gaveta. Antes de contar as camisinhas. Antes de pensar em crime. Ela soube. Maurice não estava mais lá.
Maurice, que não julgava.
Maurice, que não fazia perguntas.
Maurice, que não acordava com mau hálito.
Maurice, que não desaparecia depois de uma noite dizendo que “estava confuso”.
Maurice, o pequeno e poderoso amigo rosa com três modos de ação, havia sumido.
Procurou em todos os cantos: gaveta de meias (o sótão dos segredos), caixa de joias falsas, necessaire de remédios que vencem antes de fazer efeito. Nada. Surgiu um sentimento ambíguo: desconfiar da faxineira parecia injusto, porém inevitável.
Ela era eficiente demais. Daquelas que enxergam a alma da casa. Que limpam até as manchas de arrependimento na cabeceira. Que entram em silêncio e saem com sua dignidade dobrada em quatro dentro da mochila.
A história, se olhada de um ângulo generoso (ou romântico, dependendo do teor de vinho ingerido), pode ser lida como um manifesto. Um gesto de libertação. Uma mulher que, ao limpar os rastros dos outros, encontrou um traço de si que ainda não conhecia: a possibilidade do prazer sem pedir desculpas.
Porque a verdade é essa: ninguém ensina prazer. Ensina matemática, ensina a lavar a louça, a perdoar, a passar pano. Mas isso, não. Isso, se aprende por acidente. Ou por furto.
Agora ela, a proprietária, a prejudicada, encontra-se desamparada. Sem Maurice. Sozinha como, no fundo, todos estamos. Sozinha com a dúvida que não pode ser silenciada: foi apropriação indébita ou descarte acidental?
Sim, a dona perdeu seu pequeno aliado. Mas, em troca, ganhou um dilema moral dos bons. Afinal, o que perturba mais: ser vítima de um furto ou ser catalisadora de uma epifania sensorial alheia?
A verdadeira tragédia não é o objeto perdido/afanado. Mas saber que o pequeno artefato conduz revoluções invisíveis debaixo de cobertores baratos.
Pessoalmente, questiono se esses itens são realmente furtáveis. Não seria anti-higiênico? Ou, lavou tá novo? É complexo julgar quem carrega gritos contidos, quem abriga feras adormecidas sob a pele.
Porque, como bem sabemos, o prazer autêntico, o genuíno território do indomável prazer, nasce, floresce e explode na clandestinidade.
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E então, três dias depois, ela abriu o armário. No compartimento lateral, aquele logo ao lado da cama, onde ela nunca guarda nada, ele estava ali.
Maurice!
Guardado com um cuidado quase maternal. Zipado. Alinhado. Posição neutra.
Não foi roubo. Não foi revolução. Foi capricho.
E isso, honestamente, foi ainda mais perturbador.
O que parece um desaparecimento é só alguém tentando te proteger de você mesma.
Ou pior: da bagunça que você chama de rotina.
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