Segue uma série de anotações feitas durante as férias. Sem datas, sem organização lógica.
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Férias: aquele momento raro em que o Google Calendar perde para o barulho do mar.
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Viajar é fingir que a gente não se leva junto. Mas aqui estou eu, debaixo do mesmo céu, com as mesmas perguntas, só um pouco mais bronzeado.
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Todos querem uma Argentina. Mas não importa o destino, levamos o estrago conosco.
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O relógio perde a autoridade e o coração reencontra velhos sotaques.
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O capitalismo é tão eficaz que senti culpa por estar descansando. Você posta fotos de piscina em dias azuis e ensolarados enquanto colegas de trabalho em São Paulo penam em um dia nublado de 16°.
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Dias de paz com sonhos enigmáticos. A realidade se mostra como entidades que surgem para me falar algo importante que não se consegue captar.
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Alimenta-se de esperança com o estômago cheio de descrença.
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Alguns projetos que depositei minha felicidade não deram resultados. O sol brilha e sorri em um céu azul puro que tenta entrar na tempestade de meu coração desalentado. Não quero pensar que estou amaldiçoado em uma temporada de azar que segue já há uns 3 anos. Tenho motivos pra celebrar, eu sei. Mas às vezes, pensar positivo parece um trabalho pesado demais para quem só queria respirar em paz.
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Voltei da praia com sal nos olhos e areia no fígado. Uma viagem embriagada, ruidosa só no interior. Do lado de fora, o mundo seguia em modo postal: coqueiros estáticos, velhinhos sorrindo para o horizonte, garotas bronzeadas num tédio perfeito. Aqui dentro há demônios do vinho e cerveja disputando espaço com uma esperança ordinária.
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Me sinto renovado mas, mais velho. Essa percepção de idade é fruto da influência das redes. Acho interessante como as pessoas buscam seus direitos e possibilidades de viver os seus corpos com liberdade mas gostam de cutucar sem nenhum remorso temas como calvície, altura e faixa etária.
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Não posso me deixar influenciar por miudezas de uma juventude que tem acesso a tudo e que não se aprofunda em nada. Incomoda, mas não vale o gasto de energia. E olha que nem sou calvo, gordo ou idoso.
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É curioso como o trabalho esconde pensamentos. Sensações. Pequenos abismos. Quando a rotina cala, a mente começa a sussurrar. Então, no silêncio do nada para fazer, percebemos o quanto estávamos ocupados demais para se escutar.
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Preciso estar mais presente, buscar mais dentro de mim mesmo antes de esperar no outro. Aceitar os momentos ruins como férteis, não como punições. Nem tudo o que brilha é amor, e nem toda ausência é rejeição. Ouvir a própria luz interior é o primeiro passo para encontrar o outro.
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Passei horas olhando o mar. Passei horas vendo a lua no mar. Lua cheia em Libra.
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Tudo pode se alinhar, mas não agora. Não com pressa. Existe verdade e beleza no horizonte. O coração se ilumina se não desistir de brilhar.
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Existe uma pedagogia secreta nas recusas. Uma gramática silenciosa nos e-mails sem resposta, nos “seguimos com outro perfil” e nos olhares que não retornam. E, por alguma razão patética e humana, é ali que a gente insiste em decifrar um propósito.
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Passei semanas colecionando nãos, desses que chegam educados, cheios de agradecimento pela participação e votos de sucesso. Agradecem tanto que você começa a suspeitar que a rejeição é uma gentileza travestida de elogio. “Seu perfil é incrível, mas…” Sempre tem um “mas” que funciona como um ponto final disfarçado de vírgula.
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No fundo, eu queria que a vida me explicasse, que fosse um pouco mais organizada em suas intenções. Se vai me negar algo, que deixe um bilhete. Uma legenda. Um porquê. Mas ela é O mistério.
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Precisamos das musas aleatórias do não-algoritmo. Da serendipidade. Mas só não se deixe levar por uma frase bem escrita e espirituosa, achando que pode salvar o seu mês ou qualquer parte remendada sua.
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Em vez de fechar um ciclo, abriu-se outro: mais sensível, mais faminto, mais estúpido. A esperança de que algo escapasse do previsível, do morno, do já sabido.
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Me prendi nisso como se fosse uma profecia. E foi só uma piscadela do caos, mais um aceno do nada. Mas eu mordi. Mordi fundo. E sangrei versos. Porque sou burro, sou poeta, sou humano.
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Essa é a grande ironia: a gente aprende com o que não entendeu.
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A vida não está tentando me dizer nada. Está apenas se movendo. Como o mar, que não tem intenção de engolir castelos de areia. Apenas faz o que sempre fez. Vai e volta. Leva e traz. Sem pauta. Sem lição de moral.
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E nós, bichos de significado, seguimos tentando fazer sentido do silêncio. Transformamos o vazio em história, a rejeição em rito, e a ausência em poesia.
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No fundo do cinismo, ainda carrego a ternura idiota. Essa vontade de crer na próxima praia, na próxima curva, no próximo “não”, que haverá um bilhete escondido. Um suspiro do universo dizendo: “agora vai.”
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E se não for? Bebo mais um copo, escrevo mais uma linha. Deixo que o mar me ensine a fina arte de ir e vir sem propósito algum.
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Um poema de uma semana não santa
Te ergueria num altar de desejo cru,
sem rezas mansas,
sem oferendas de frutas doces
só com sacrifícios.
Com sangue.
Com pele.
Com ego dilacerado aos seus pés.
Te faria deusa, sim.
Mas pagã. Selvagem.
Daquelas que não pedem, exigem.
Que não acolhem, devoram.
Só não espere me encontrar.
Porque só se encontra o que se perde.
Mas eu, amor, nunca estive disponível para ser achado.
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Às vezes, a gente se afoga só de olhar a água. Às vezes, a gente ama só de escutar o eco do mergulho.
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Meu coração, esse colecionador de tudo, insiste em ver mapa onde nem existe lugar.
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Atingi o admirável ponto na curva de alteração da consciência onde o excesso se torna tédio.
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Fim de tarde, um calor de fritar mágoas no asfalto, e eu ali encostado numa árvore, rodeado de mangueiras gordas e preguiçosas. E ela apareceu. A Lua.
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A Lua tem um truque antigo de surgir inteira, redonda e vagabunda no céu, como se fosse dona do tempo e da minha ressaca emocional.
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Subiu lentamente, sem cerimônia, por entre os galhos. Uma Lua Cheia em Libra, disseram. Libra, esse signo esteta, indeciso, amante da harmonia que nunca encontra. A Lua dos poetas partidos e dos amantes exaustos.
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Tudo tem cheiro de terra molhada e saudade mal curada. O ar noturno é grosso, quase um vinho espesso derramado sobre a pele. E a Lua me olhava: “Então, querido, ainda tentando se equilibrar entre o desejo e a desistência?”
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Beleza desconcertante, mas ainda assim vale a pena olhar. É como abrir um vinho caro em noite errada.
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A Lua. Sempre ela, redonda, branca, impertinente. A amante platônica de todos os desesperados sensíveis.
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Numa dessas tardes que sentei sozinho na areia, com o corpo quente de sol e uma garrafa vazia ao lado, o vento era tão forte que assobiava na boca da cerveja.
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Um pescador se aproximou, olhos gastos de horizonte. Conversamos. Disse que uma vez já foi empurrado ao mar por só por maldade dos outros. Sorriu com os dentes que lhe restaram e voltou a lançar o anzol, aceitando o jogo do mar, sem esperar peixe.
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Sempre me arrependo das minhas intrusões no que diz respeito ao espaço dos outros. Mas faço isso por entusiasmo, por gostar de forma legítima das almas interessantes. Essas, cada vez mais raras.
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O correto, neste mundo morno, é fingir apatia e desinteresse.
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Fiz uma analogia: banquete estoico.
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Dizem que a vida se parece com um grande banquete.
Não desses de fartura barulhenta, mas daqueles em que o silêncio tem gosto de espera.
A etiqueta é antiga: mantenha-se no seu lugar.
Não estenda o braço antes da hora. Não levante. Não implore.
A travessa há de chegar, se for para você.
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Há dias em que o aroma é forte demais.
Em que o prato alheio brilha mais que o sol da tarde.
E o apetite se confunde com urgência.
Então você se curva. Se alonga. Faz cálculos.
Tenta, com jeitinho, tocar o que ainda não te pertence.
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O banquete não gosta de pressa.
Há algo sagrado em ficar sentado.
Algo digno de aceitar que nem toda fome será saciada.
Há travessas que passam direto, sem sequer olhar na sua direção.
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Eu me levantei. É verdade.
Achei que podia mudar o curso da refeição.
Inventar um atalho entre o desejo e o prato.
Mas fui visto. O banquete viu.
E me devolveu ao lugar com mãos vazias, mas firmes.
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Entendendo que há pratos que só nos servem quando não os pedimos.
E que o melhor da mesa é o silêncio entre um desejo e outro.
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O banquete estoico não é feito de fartura, mas de espera.
É a mesa posta com o que chega, não com o que se quer.
É o prato vazio que não reclama, porque sabe que a travessa um dia passa e, se não passar, a fome não é razão para perder a compostura.
É aceitar o lugar à mesa sem empurrar ninguém, é o silêncio diante do ruído dos desejos,
o brinde com água enquanto todos buscam vinho.
No banquete estoico, a graça não está no prato, mas no apetite domado.
E o sabor é a paz de não depender do garçom, do tempo ou do outro.
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São Paulo. De volta às maravilhas de uma vida comum.
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“Viajar, para quê e para onde,/ se a gente se torna mais infeliz/ quando retorna?”
“Poema Jet-lagged” – Waly Salomão.
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Adoro seus textos. Tenho curiosidade em saber se você já escreveu um livro. Se sim, quero comprar. Se não, por que ainda não, Deniac? Foi através das suas postagens no antigo Twitter que virei fã de Small Black e Cigarettes After Sex.Sempre me pergunto qual foi o último livro que você leu — e se o recomendaria a um amigo.Eu, recentemente, li “A Empregada”, da Freida McFadden. Muito bom!Fico feliz com seus textos. Seu talento é incrível. Um abç