Há algo de incômodo na figura dos influenciadores e não falo apenas dos que vendem cosméticos ou receitas de air fryer, mas de toda essa nova casta de condutores do desejo.
No reino das letras, os booktubers tornaram-se uma espécie peculiar de sacerdócio. Cultuam a leitura com devoção visível, mas com um apego quase neurótico à estética do objeto.
Mesmo quando bem-intencionados, sugerindo um livro com brilho nos olhos e a tag #leiamais, há um ruído em suas vozes, parecendo que algo essencial está sendo domesticado.
Quem olha direitinho, percebe que esse influenciar é sempre uma forma de desorganizar o que é autêntico. Um jeito de fabricar o espontâneo.
Suas estantes são um altar de lombadas ilesas, edições de colecionador jamais violadas, páginas virgens apenas sonhadas, nunca lidas.
Já disseram por aí, apesar de eu ter esquecido quem: o livro, para o verdadeiro amante, não é um instrumento de estudo, mas uma posse sensual. Os booktubers, ao contrário, parecem lidar com os livros da mesma forma que lidam com porcelanas herdadas de uma tia distante. Belas, sim, mas intocáveis.
É impossível assistir a um vídeo desses e não se sentir, ainda que de forma sutil, inadequado. A maioria de nós, com suas leituras espaçadas, interrompidas pelo cansaço ou pelo peso dos boletos, mal consegue terminar um livro por mês.
E, de repente, somos confrontados por listas de “dez leituras essenciais da semana” e comentários que parecem sentenças: “esse aqui devorei numa tarde!”.
Porra, vá se fuder, meu amor!
Os dias que seguem estão nos fazendo perder a nossa identidade. Precisamos nos aceitar e entender que ler devagar ou de forma desorganizada não é inferior, mas profundamente humano. Ler é a vida em essência: tem interrupções, perguntas, desvios, preguiça e paixão.
Nesse cenário, conhecer o perfil “Bruna e Livros” é um alívio quase físico. Ela, em sua heresia deliciosa, “maltrata” seus livros com um carinho que beira o sagrado. Sublinha, dobra páginas, rabisca escrevendo de volta, adicionando itens à edição.
Ver isso é libertador. Por muito tempo tive vergonha de tratar os meus com orelhas dobradas, margens sujas de café e anotações impulsivas escritas no escuro.
Ler precisa ser um gesto de apropriação, pois não há leitura neutra. E o verdadeiro leitor deixa vestígios.
Escreva nas páginas. Deixe nelas o cheiro do seu quarto, do seu corpo, os grifos de uma madrugada insone, o suor das mãos que voltam cansadas do trabalho. O texto só se completa no encontro com o leitor.
Dê aos seus livros uma biografia paralela. Uma história dentro de outra história. Eles serão menos perfeitos, é verdade, mas terão, ao menos, uma alma.
E ela será só sua.
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Que texto bacana!! Confesso que sou um meio termo: marco meus livros com post it, mas dificilmente escrevo neles. Mas preciso dizer: acho uma delícia encontrar um livro num sebo, com uma marcação de leitores anteriores.
Ah, com certeza. Entendo demais. Há edições que prefiro não escrever ou marcar nada. Mas mesmo assim fica a minha marca. 🙂
AMEI o título e o texto!
Obrigado, querida Giullia!
Cara, eu penso igual a você: os livros precisam ser lidos sem medo. Sem medo de estragar, de manchar a página, de rabiscar… Quando levo meus livros para a praia, pego neles até com a mão molhada de água salgada. Rabisco, rasuro, dobro, abro… LEIO. Muito legal seu texto e devo dizer: você escreve muito bem. Parabéns!
Exatamente. Somos co-autores nesse processo. Obrigado pelo elogio. Sao muitos anos de “pena” por aqui.
“Porra, vá se fuder, meu amor!” HAHAHAHA é nessa energia mesmo. a irritação que me dá quando querem vender o papo de leituras intensas em pouco tempo como “quem quer consegue” “acorde as 4am” MEU AMORRRR pra ler as minhas queridas putarias que nada mais são do que puro entretenimento eu preciso sacrificar boas horas de sono e muitas outras coisas. e no fim até isso vira corrida né? quantos livros lidos no mês-ano.
desabafos a parte. deu saudade da época em que eu conseguia separar um tempo para livros físicos e tomava boa parte deles desbravando os sebos. dedicatórias e manchas de café.
enquanto não resgato esse hábito me contento com as leituras no kindle e em apreciar os rabiscos alheios ao procurar indicações.
Pois é. Me dá uma raiva desses influenciadores. 😂 Estou entre os dois mundos, eletrônico e físico, ambos são bons para momentos distintos e um não invalida o outro. O importante é ler com qualidade. O resto é performance exibicionista.