Lanço-te um grito selvagem, nascido nas entranhas do indizível, um bramido ancestral que minha língua civilizada não consegue domar.
Lanço-te a braba sem jeito dos não cultos, o desejo escondido que tenho vergonha de parir na minha boca. Te ofereço este segredo ardente que queima na garganta, desejo encarcerado em ossos e pele, prisioneiro das convenções que me vestem diariamente.
É o seguinte:
Sob o verniz das horas organizadas, habita em mim o mau sangue de Rimbaud que sonha com nossas mãos entrelaçadas correndo contra o relógio do que é comum.
Quero beber a cidade contigo, sorver cada esquina com vinho quente, deixar que nossos corpos desorientados sejam bússolas quebradas na madrugada.
De boteco em boteco, catedrais profanas onde a verdade se revela nos copos vazios e nas risadas sem juízo.
Na sinfonia caótica da noite, escrevendo poemas sujos em teu ombro nu esquerdo, enquanto as canções de amor ecoam irônicas e verdadeiras no centro da cidade.
Assim, desobedientes ao mundo lógico, braços entrelaçados contra o amanhecer, comungando a loucura sagrada que os poetas e os bêbados conhecem.
Passo os dias imaginando essas coisas, e também nós dois, joelhos contra o asfalto úmido, olhos no abismo um do outro, vomitando estrelas na sarjeta.
E ali, entre o céu e o esgoto, encontrando a beleza brutal da existência, eu diria:
“Como é sublime saber que meu destino se entrelaça ao teu! Não canso do teu rosto, essa pintura de dias nublados, com um vento frio percorrendo as margens da alma. Teus lábios, tingidos de um vermelho profundo, lembram um segredo sussurrado à noite, algo entre o desejo e a melancolia. Os olhos são como espelhos d’água que guardam histórias não ditas, um oceano interno que se mantém calmo por fora, mas que abriga tempestades silenciosas. É o olhar de quem já amou e perdeu, de quem já sonhou e acordou, de quem dança entre a doçura e a sombra”.
Então, tua voz rouca e pueril me mataria de doçura, respondendo: “Puta que pariu, como é bom estar com você”.
Com os olhos rasos d’água, eu diria satisfeito, que amor, que amor!
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“Sou de uma raça antiga: meus pais eram escandinavos: eles se trespassavam as costas, bebiam o próprio sangue. Farei incisões por todo o corpo, tatuar-me-ei, quero tornar-me horroroso como um Mongol: verás, uivarei pelas ruas.“
Une saison en enfer, Rimbaud
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Adoro seus textos. Tenho curiosidade em saber se você já escreveu um livro. Se sim, quero comprar. Se não, por que ainda não, Deniac?Também curtia seus tweets no novo X, mas depois que você pegou ranço do Elon, sumiu de lá. Foi através das suas postagens que virei fã de Small Black e Cigarettes After Sex.Sempre me pergunto qual foi o último livro que você leu — e se o recomendaria a um amigo.Eu, recentemente, li “A Empregada”, da Freida McFadden. Muito bom!Fico feliz com seus textos. Seu talento é incrível. Um abç!
Poxa, que legal. Não sabia que você me seguia por lá. Meu sonho é escrever um livro, mas confesso que não me organizo para isso. Bom saber que as loucuras que posto, tão pessoais, de algum modo toquem as pessoas. Não conheço esse A Empregada. Vou procurar. Muito obrigado 🫶