Aqui é Daniel Quirino, vivendo os seus últimos dias. Sorrindo para estranhos, conversando com cachorros e tentando alimentar pássaros urbanos. Como vai a sua vida? Espero que esteja bem. Porque, aqui na órbita do meu coração, desisto com todas as forças de tudo que o mundo considera vencedor. O mundo é um tédio quando insiste nessa história. E cansa profundamente.
E não, não há tragédia alguma. Nem anúncio de um diagnóstico terminal, (a não ser o que todos recebemos ao nascer). Roubei descaradamente a ideia do jornalista Telmo Martino, que costumava ligar para o colega Ruy Castro com esta deliciosa bravata (As serpentes encantadoras são as melhores!).
E admito, você deveria fazer o mesmo: há uma liberdade peculiar em encarar cada dia como o último. Uma espécie de concessão ontológica, uma licença poética para dispensar convenções e dar as costas a expectativas sociais tediosamente previsíveis.
Foi Montaigne, talvez o primeiro blogueiro da história, quem escreveu que filosofar é aprender a morrer. Mas a morte, coitada, anda tão saturada de metáforas que quase esquecemos sua função prática.
Esquecemos que a verdadeira catástrofe do fim não está na sua fatalidade, mas na negligência com que tratamos o tempo que o antecede.
Então leia aqui os meus lábios e enfie estas palavras dentro de sua cabeça teimosa. Saiba como se despedir da vida constantemente. Ignore a débil e inútil necessidade de vitória. Aprenda a morrer hoje mesmo.

Charge de André Dahmer publicada na Folha de S.Paulo em 27 de fevereiro de 2025. Com seu humor ácido e crítico, Dahmer mais uma vez traduz em poucas palavras e traços as contradições da sociedade.
Curioso é que, ao anunciar que vivo os meus últimos dias, percebo que os encaro com um senso de clareza até então inédito.
Na proximidade do fim, todas as urgências mundanas revelam-se tão dramáticas quanto uma novela mexicana dublada. Todas as suas preocupações são, em grande parte, a mais pura vaidade.
A maioria dos seus problemas vieram da sua vontade mórbida de estar dentro dos padrões que algum imbecil te impôs e você toma como verdade. E essa ideia maldita está em todas, absolutamente todas as camadas sociais.
Por isso, me liberto do peso da posteridade e faço escolhas que beiram o hedonismo dos estoicos (esse seleto grupo de filósofos que soube, antes do resto de nós, que nenhuma tragédia é grande o suficiente para justificar um vinho ruim).
Tenho andado a esmo, observando pequenos dramas que se desenrolam sem audiência. Leio sem a culpa de abandonar o livro pela metade, o filme pela metade e a comida pela metade. Não mereço, você não merece. Jogue fora suas resoluções de Ano Novo.
O mundo nunca me pareceu tão interessante quanto agora. Talvez sempre tenha sido. Eu é que estava distraído.
Baudrillard, em Cool Memories, zombava do otimismo ingênuo de frases como “Hoje é o primeiro dia do resto de nossas vidas”. Ele também sabia que qualquer primeiro dia já carrega a semente de um último. E se estamos condenados a esse ciclo, que seja com estilo.
A nostalgia do futuro é um luxo que não me permito. Meu tempo é o agora. Meu projeto é hoje.
Há uma certa elegância em encarar a vida como um ensaio geral interminável para um espetáculo que nunca estreia. O segredo não está em evitar o caos (privilégio dos mortos) mas em aprender a caminhar sobre ele, mas com a leveza de um equilibrista de circo que está pouco se fodendo se há uma rede de segurança abaixo dos seus pés.
Nestes meus últimos dias, vivo mais do que antes.
Não tenho tempo para mediocridade. Porque, convenhamos, a mediocridade é um luxo que ninguém pode se dar ao trabalho de pagar.
A vida é uma festa estranha de cafajestes julgadores, e o mínimo que podemos fazer é dançar desajeitado até sermos expulsos dessa celebração cafona.

Charge de Estela May publicada na Folha de S.Paulo em 28 de fevereiro de 2025. Com um traço expressivo e um humor inesperado, a ilustração brinca com a quebra de expectativa em uma cena romântica.
O universo não gastou bilhões de anos combinando poeira cósmica e caos primordial só para você reclamar do trânsito, do frio, do calor ou comer pizza triste de micro-ondas.
Viva seus últimos dias como se fossem primeiros encontros, com entusiasmo absurdo, com tristeza absurda, com expectativas altas para se decepcionar com classe (Ou não, o resultado não importa, tudo é proveito, lide com suas emoções, porra!) e uma vaga esperança de que alguém esteja filmando tudo secretamente para exibir depois na sua despedida.
Assim sendo, deveras digo hoje:
Se é para criar, que seja audacioso.
Se é para amar, que seja sem reservas.
Se é para partir, que seja deixando marcas.
Se é para falhar, que seja espetacular.
Pois bem, meu bem, aqui é Daniel Quirino, vivendo os seus últimos dias, com a camisa molhada de vinho, brindando ao sol que não pára de nascer em algum horizonte do planeta neste exato momento e a pompa indevida de quem acredita piamente na própria imortalidade.
Um grande beijo, um abraço forte.
Eu vejo o sol pela janela!

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Certohttps://marrrrina.blogspot.cm/, tatuando esse manifesto contra o marasmo ✍️
(foi um link que não era pra ir no comentário 🥴)
Vou seguir teu blog e inserir aqui no meu blogroll. Vai que eu morra amanhã. 😉