Todos os domingos, me forço a escrever uma única lauda com algo que preencha alguma lacuna do meu e do seu coração. O problema é a pretensão enorme da ação. Quero fazer um texto interessante de pronto, de supetão, sem um planejamento mínimo ou qualquer definição de pauta.
A mania morre agora, porque mesmo que não consiga publicar de imediato, vou enfeitando tudo com mil referências para deixar o texto mais elegante e consumível. Leio milhares de itens como um infeliz no leito de morte e não consigo cruzar os assuntos que acompanho para criar pautas sublimes, mesmo as mais rasas.
Se é uma limitação mental ou simplesmente uma preguiça enorme, não sei dizer. Sou um leitor constante, mas sem o hábito de transformar as letras em combustível de qualidade para a criação. É um músculo fraco, desabituado aos exercícios. Além disso, ninguém aqui é herdeiro e o trabalho adicionado aos afazeres domésticos me custam muito. Tudo tem outro peso quando temos outras vidas sob nossa responsabilidade. E isso é bom.
Falta uma semana para o carnaval, um pequeno alívio da rotina que o capitalismo nos impõe, da enfadonha tarefa de sorrir para quem não merece nossos sorrisos e conviver com quem não merece a nossa presença física.
Pelo menos consigo me desligar de tudo relacionado ao trabalho quando estou fora. E mesmo dentro dele, encontro partículas minúsculas, mas graciosas, de acontecimentos e coisas que geram felicidades, que vão ali se revelando timidamente no dia a dia.
(Pronto, encontrei minha pauta!)
Boxe: o cheiro áspero do couro das luvas, impregnado de suor e esforço, um perfume agridoce de luta e resiliência. Encontrar colegas, trocar acenos que dispensam palavras, sentir a tensão elétrica no ar antes do primeiro golpe. Socos como descarga de energia acumulada que se dissipa, não apenas a física, mas aquela outra, invisível, feita de cansaços e frustrações. Entre os rounds e respirações ofegantes, as conversas se desenrolam como fitas de uma história paralela, diálogos que se estendem muito além do ringue, sobre tudo aquilo que verdadeiramente importa e não importa.
Andar pela cidade: emergir do metrô como quem sobe à tona após um mergulho profundo, aspirando o ar repleto de promessas.
A rua, sempre nova e antiga, exibe seus murais improvisados: pichações recentes, traços enigmáticos que contam histórias sem necessidade de tradução. O emaranhado de almas que se cruzam diante dos meus olhos, um tear de passos apressados e olhares distraídos. Expressões carregadas de universos inteiros, de alegrias passageiras, desilusões secretas, a pressa dos que ainda têm tempo e a calma dos que já o perderam.
Os cheiros das comidas de rua que se misturam como notas em uma composição desordenada, mas harmoniosa. O vento, caprichoso e efêmero, soprando o calor para longe e espalhando promessas de chuva e enchentes nervosas de um mundo que derrete.
Passar na livraria: namorar calhamaços caros, pensar 500 vezes se vale comprar. Ver as pessoas olhando as edições, deslizar os dedos pelas lombadas como quem traça um mapa de viagens possíveis. Sentir a textura do papel, medir o peso de cada volume. A hesitação silenciosa se reflete nos outros leitores, igualmente indecisos, igualmente fascinados.
Tomar café: permitir-se o prazer sem culpa de um New York Roll voluptuoso, inchado, com sua crosta dourada e seu recheio cremoso, um luxo modesto, mas imbatível.
Me perco nesses rituais, coletando fragmentos da realidade, pequenas epifanias do cotidiano que me recordam, sempre, que vale a pena continuar, apesar das farpas, apesar de tudo.
A vida é um charme (ao menos para mim, dentro da minha realidade estúpida). E ela merece crônicas que se tornam cápsulas do cotidiano. Um pause metafísico e impossível de tudo. Eu sou jornalista. E é minha obrigação te mostrar essa realidade. Refletir sobre trivialidades em tom espirituoso.
Façamos das nossas vidas um grande charme, então.
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