Em algum ponto do caminho, sem percebermos, cruzamos o limiar. Antes, escrevíamos com a certeza de que nossas palavras, ainda que imperfeitas, carregavam o peso de nossa experiência, de nosso olhar singular sobre o mundo. Agora, toda escrita parece nascer sob uma sombra que paira nas frases, metáforas e argumentos: isso foi escrito por uma pessoa ou por uma máquina?
A dúvida não é apenas dos leitores. Ela se insinua no próprio ato da escrita. Escrevo e, em vez de confiar no fluxo dos meus pensamentos, me pego analisando se minhas palavras têm a crueza e o descompasso necessários para parecerem humanas.
Minha angústia não vem apenas do fato de que IA pode gerar um texto semelhante ao meu, isso já é um dado do presente. O que me inquieta é que essa presença invisível muda a forma como me vejo enquanto redator.
A escrita, antes um espelho do que há de mais humano em mim, agora se tornou um Teste de Turing!
O que acontece quando nossa própria expressão passa a ser vista como parte desse grande simulacro? Quando a autenticidade se torna um conceito nebuloso e contestável?
Escrever, hoje, é habitar essa dúvida e tentar provar a si mesmo que ainda há um resíduo de humanidade que não pode ser imitado.
Isto posto, começo a notar padrões. As referências que me moldaram e que, por sua vez, moldam este texto. Se uma IA fosse gerar algo no meu estilo, muito provavelmente seria assim, uma colagem das influências que me construíram.
O que me leva a pensar: será que escrevo isso porque sou eu, ou porque já sou, de certa forma, um produto do mesmo processo? Um remix algorítmico de todas as vozes que absorvi?
A IA não precisa, necessariamente, inventar algo do zero para que um texto pareça gerado por ela. Em vez disso, basta que ela reconheça padrões em tudo o que já foi escrito, incluindo minhas influências, referências e estilo, antecipando a forma que minha escrita tomaria.
Se uma IA pode prever minhas escolhas linguísticas e estilísticas com base no que já existe, minha criatividade é um ato original ou apenas a continuação lógica de um banco de dados maior?
É a paranoia de Philip K. Dick aplicada à escrita: e se eu for apenas um vetor de um processo que já está acontecendo, um algoritmo orgânico rodando dentro de um sistema de referências e influências?
A IA não precisa substituir minha escrita. Ela só precisa observar, aprender e esperar. Porque, cedo ou tarde, eu entregarei o padrão que ela já antecipou.
Ou seja: A IA não precisa criar um texto meu. Talvez ela só precise esperar que eu o faça.
:::
A ilustração para este texto foi gerada por IA a partir de um prompt no estilo Glitch e Art Pop, combinando texturas vintage, distorções digitais, colagens e elementos vibrantes, seguindo a inspiração de gravuras antigas e cartazes serigrafados.
Descubra mais sobre ::: DENIAC E SUA VIDA LOW-TECH :::
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.