Começo curto e direto, com meus dois pés metafóricos arrombando a porta do seu coração: Peço, por gentileza, que seja humano, uma alma exploradora de outras almas. Que vá lento, sempre lento. Não seja frio e não fale só de você. Tenha curiosidade pelas pessoas. Misture suas histórias com outras histórias. Misture sua alma com outras almas. Fale, mas ouça.
É uma crise de meia-idade pós-pandemia que venho tendo. Conflitos geracionais, gente nova apática. Não me acho mais interessante (E para que Diabos eu quero ser interessante para os outros?).
Por motivos diversos, essas ideias começaram a nascer como moscas na mente. E quando me sinto mal, vou em uma livraria. É um privilégio meio classe média, sim, mas qualquer um deveria experimentar se puder.
Assim, um dia, depois do almoço, com essas varejeiras mentais atordoando, fui circular sem rumo por uma livraria (Eu não quero fazer propaganda, mas a Martins Fontes da Paulista é a ideal para isso. Além disso, é claro, trabalho quase ao lado). Só Deus sabe o que eu ansiava. É nas livrarias onde mora a serendipidade. E ela sempre nos dá gratas surpresas.
Nos fones, tocava Deserta, com a sua maravilhosa I’m So Tired, em que o vocalista Matthew Doty canta suavemente, sussurrando nos ouvidos “Guess you’ll know why I’m so tired / Too tired to be cool…”
Passei meus olhos cansados sobre as capas e prateleiras e deixei o resto acontecer. Assim fui sugado pelo título “A Coragem de Não Agradar”, de Ichiro Kishimi e Fumitake Koga. Comecei a engolir o livro lá mesmo e terminei a refeição na manhã do dia seguinte.
Calhou com tudo o que eu estava passando. Combinou com os sentimentos do momento, com o eco dos humanos vazios que me cercam.
O livro é um manifesto contra a superficialidade em formato de diálogo, um grito para quem se perdeu entre as dinâmicas de aprovação social e os filtros das redes. Baseado nas ideias de Alfred Adler, oferece um chamado ousado: assuma sua vida. Não viva para agradar.
Descubro Adler como um tipo de psicanalista que não dá mãozinha para atravessar a rua. Ele olha nos seus olhos e diz: “A felicidade é uma escolha que você faz agora”. Simples assim, aterrorizante assim. A proposta é clara: suas dores são parte de você, mas não precisam ser tudo o que você é. Fácil falar, difícil viver.
Enquanto lia, fui encarando a minha própria estranheza, um escudo que sempre usei para manter o mundo distante. Quando jovem, ser estranho era minha proteção. Hoje, percebo que ainda é. Mas a estranheza tem camadas. No fundo, ela é uma busca por profundidade em um mundo que parece se contentar com cortes de quinze segundos e frases prontas.
No trabalho, isso é um campo minado. Como ser autêntico em um ambiente que valoriza performance e aparência acima de tudo? A resposta, talvez, esteja nas conexões.
Adler sugere que as relações não são um espelho para validar quem somos, mas uma oportunidade de transformação mútua. Conectar-se genuinamente é uma revolução silenciosa.
“A Coragem de Não Agradar” não é uma publicação pop. É leve, rápida, mas pesada. Estoura a mente, depois alivia. Sai o peso de agradar. Fica a sensação plena de ser você mesmo como nunca foi.
Contei a novidade a uma amiga. Ela me diz: “Você não é um cara de 15 segundos. E não ser um cara de 15 segundos em um ambiente que te julga pelos seus cortes (ou frases, palavras e brincadeiras sem te conhecer) é difícil pra caralho”.
É um mapa para quem está disposto a navegar suas próprias sombras e, talvez, as sombras dos outros. Porque a verdadeira coragem não está em agradar, mas em explorar. Explorar o humano.
Não esqueça jamais, peregrino: o inferno não são os outros, mas aquilo que carregamos dentro de nós mesmos. E o destino é apenas um ponto fixo no horizonte. Não é sobre onde chegamos, mas quem nos tornamos ao longo do percurso.
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Escrito pelos autores japoneses Ichiro Kishimi e Fumitake Koga, A Coragem de Não Agradar é uma obra que combina conceitos da psicologia adleriana com uma narrativa acessível e reflexiva. Estruturado como um diálogo entre um filósofo e um jovem em busca de respostas, o livro explora questões fundamentais sobre liberdade, felicidade e responsabilidade pessoal.
A principal mensagem gira em torno da ideia de que nossa felicidade está em nossas mãos, e que agradar a todos é uma prisão autoimposta. Ao rejeitar a necessidade de validação externa e abraçar a liberdade de viver de acordo com nossos próprios valores, podemos alcançar uma vida mais plena e autêntica.
Com uma linguagem simples e exemplos práticos, os autores desconstroem crenças como a dependência da aprovação alheia, oferecendo uma abordagem prática para viver com mais coragem.
Recomendado para quem busca um novo olhar sobre a vida e está disposto a encarar a desconfortável, mas libertadora, tarefa de ser fiel a si mesmo.
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Deserta e a hipnótica I’m Tired
A banda Deserta, projeto liderado por Matthew Doty, é uma das joias da cena shoegaze contemporânea. O álbum Every Moment, Everything You Need (2022) é uma imersão sensorial que mistura camadas etéreas de guitarras, sintetizadores sonhadores e vocais envolventes, criando um ambiente quase cinematográfico.
Dentro desse contexto, I’m Tired se destaca como uma faixa emocionalmente carregada. A música captura perfeitamente o equilíbrio entre exaustão e contemplação, com uma atmosfera que parece suspensa no tempo. Os vocais delicadamente abafados flutuam sobre uma base instrumental densa, quase líquida, enquanto sintetizadores e texturas sonoras se expandem como ondas de um oceano infinito.
A repetição quase meditativa da melodia e a melancolia envolvente da letra evocam um sentimento universal: o peso da fadiga emocional e a busca por um alívio que, talvez, só exista nos recantos mais introspectivos da mente.
Deserta entrega, com I’m Tired, uma experiência que vai além da música. Um hino para momentos de vulnerabilidade e reflexão.
I’m So Tired – Deserta
Giving up my western trouble
Right now
Tell me not to be so subtle
Always want you to be near
Guess you’ll know why I’m so tired
Too tired to be cool
Guess you’ll know why I’m so tired
I want you I want you
Never thought I’d miss the struggle
I don’t
Giving all the kids some trouble
I just want you to be here
Guess you’ll know why I’m so tired
Too tired to be cool
Guess you’ll know why I’m so tired
I want you I want you
Guess you’ll know why I’m so tired
Too tired to be cool
Guess you’ll know why I’m so tired
I want you I want you
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oi, tudo bem contigo?confesso que se tivesse visto a capa desse livro por alguma livraria, julgaria pelo título e passaria direto por ele, achando que seria algum auto ajuda fuleiro. um trabalhão reajustar a inclinação condicionada a vida inteirinha de querer agradar o tempo todo e em um mundo que meio que cobra isso…
me interessei, sábado vou passar no sebo e procurar 🙂
obrigada pela indicação, não só do livro, mas da música também. sensacional!
abraço!
Oi, Sara. Pois é. Este não tinha como não julgar pela capa, mas garanto que a leitura vai fazer a diferença na sua vida. Adler é Deus!