O Vampiro morreu. Despediu-se sem aviso, como sempre viveu: na penumbra de sua solidão, sem alardes, sem aplausos.
Dalton Trevisan, a sombra mais luminosa que já esbarrou em Curitiba, não é mais. E com ele, se vai o único motivo de curiosidade que me fazia olhar para aquela cidade cinzenta. Ele, que nunca quis ser desvendado, agora repousa no mistério eterno.
Meu velho, você era mais que um escritor. O único homem por quem nutri uma curiosidade febril. Como teria sido sentar ao seu lado, ouvir seus silêncios, colher migalhas de sua reclusão? Eu queria ter sido seu amigo, mesmo sabendo que você nunca quis ter amigos.
E mais: queria ter sido você. Te invejei de verdade: Um Vampiro que cuspia frases afiadas, cortando o ar com histórias que sabe-se lá Deus de onde vieram. “Tem dias que nem deviam ter, outros dias que valem por um ano.” Sim, tem dias que valem por um ano de tão bom que é. E a gente se perde nos corredores de eventos frívolos mas saborosamente inebriantes que vale a pena se arrepender depois. Deliciosos arrependimentos!
Eu te li. Te consumi em cada linha, cada conto breve. E comecei a achar cool a reclusão, a dar protagonismo aos personagens, a não precisar de aplausos, a caminhar sozinho sem perder o rumo. Aprendi uma porrada de dores e doçuras sobre a vida.
O Vampiro se foi, mas as palavras ficaram. E nelas, você vive. Porque tem dias que valem por um ano, e tem escritores que valem por uma eternidade.
– Me chamou putinha. É o que sou? – Que nada. Isso é carinho.
Muito sofredor ver moça bonita – e são tantas.

Flagrante raro do escritor Dalton Trevisan andando pelas ruas de Curitiba em 2009 Foto: Rodolfo Buhrer
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Nesta matéria que saiu na Folha de hoje, o jornalista Etel Frota finaliza o texto com um dos mais belos obituários que já li:
“Trevisan foi casado durante mais de quatro décadas com Yole Bonato, morta em 1998. A filha mais nova, Isabel, morreu de câncer antes dos 40 anos. Bonato morreu logo em seguida, pela mesma doença.
O escritor deixa as netas Katiuscia e Natasha. Sua morte também deixa órfãs várias safras de contistas, que de muito bom grado teriam dado a ele a jugular para morder.”
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Cinco livros para conhecer obra literária de Dalton Trevisan
Cemitério de Elefantes (1964)
Há 60 anos, Trevisan despontou com uma obra que reúne contos breves, ambientados no meio rural e urbano, retratando personagens comuns do cotidiano curitibano.
O Vampiro de Curitiba (1965)
Livro de contos, estruturado como um romance, tornou-se tão marcante que virou o apelido de Trevisan. A obra segue o “vampiro” Nelsinho, obcecado por sexo, em sua busca por vítimas nas ruas de Curitiba, em uma narrativa cheia de suspense.
A Guerra Conjugal (1969)
Com 30 contos curtos, este livro, considerado um dos melhores de Trevisan, retrata relações a dois onde todos os homens são João e todas as mulheres, Maria. As narrativas exploram temas como adultério, alcoolismo, traição e violência.
Macho Não Ganha Flor (2006)
Nesta obra madura, Trevisan reúne contos que exploram personagens cruéis e moralmente ambíguos. Com uma narrativa crua, o autor retrata ladrões, drogados, assassinos, depravados e covardes.
Antologia Pessoal (2023)
Em 2022, Trevisan criou um folheto com 94 histórias selecionadas e retrabalhadas, que distribuiu a amigos e críticos. Posteriormente, a obra foi lançada comercialmente pela editora Record.
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