Em tempos antigos, mototáxis sempre foram os salvadores das minhas madrugadas. Ainda lembro como era em Camaçari, antes dos apps, quando a vida batia forte e tudo o que eu queria era voltar pra casa.
Hematomas nas pernas, uma cabeça pesada e a sensação de que aquelas noites de bebedeiras em nome da diversão eram uma tentativa frustrada de afogar o que nunca foi possível afogar.
O barulho do motor era um ruído tranquilizador que fazia sentido naquelas horas. O piloto sem perguntas, sem papo. Era só acelerar pelas ruas vazias.
E enquanto o vento cortava meu rosto, eu sempre lembrava de alguma música do Slowdive. A melodia mental se misturava ao ambiente de um jeito quase estranho, como se aquela composição fosse feita para aquele momento.
Ouço eles desde a adolescência. 1994, para ser mais exato. Melancólico por natureza que sou, o som do grupo sempre foi um afago para o coração. E desde o primeiro álbum fazem algo incrível: nunca mudaram de estilo. As guitarras e vocais etéreos criando uma atmosfera fria, única, mas de alguma forma, reconfortante.
Em 2023, lançaram o álbum Everything is Alive, que tinha dentro a pérola “Kisses“. E claro, não decepcionaram: continuaram trazendo todo aquele clima de amor, perda e nostalgia que executam tão bem.
A questão toda aqui é o clipe, coincidentemente parecido com alguns momentos já vividos.
Dirigido pelo Noel Paul e gravado em Nápoles, na Itália, o vídeo mostra várias duplas de atores rodando noite adentro pelas avenidas da cidade, numa aura de devaneio.
A escolha de Nápoles como cenário contribui para a atmosfera etérea e triste da música, criando um contraste interessante com a vibrante arquitetura do lugar.
Paisagens que parecem tiradas de sonhos, uma mistura de natureza e cidade, tudo com aquela luz difusa, meio lavada. Os personagens tão perdidos quanto eu era, rodando em círculos, buscando algo desconhecido.
Eu vivi isso: a estética onírica, as cores suaves, tudo é quase tangível. A câmera capturando mais do que imagens: registra um tempo que eu não conseguia definir.
Demorou anos para eu entender porque a volta de mototáxi era quase mágica. Cada esquina, cada rua deserta atravessada, me dizia que eu estava um pouco mais perto do meu quarto, da minha cama, da minha paz.
E não era só uma viagem pela cidade adormecida. Era uma metáfora. Estamos sempre tentando voltar para casa, mesmo que não saibamos exatamente para onde se está indo. Ou o que é uma “casa”.
Não importa quão quebrado você esteja, sempre há uma música (ou um mototáxi) para te levar de volta.
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A base de fãs do Slowdive está ficando cada vez mais jovem, o que mostra o quanto a música deles continua a se conectar, especialmente com os mais novos, que costumam sentir tudo com muita intensidade.
Quando eu era adolescente, com 15 anos, minhas emoções estavam em todo lugar. Nos anos 90, o Slowdive foi o que acalmou minha alma. Agora, aos 46, eles ainda fazem o mesmo.
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Banda do meu coração. Mergulhe sem medo!
Valeu pela recomendação! Eu conheço um pouco só dessa banda, uma descoberta recente, mas ótima.