Fui picado pela caceta do desânimo. Um porre. Sim, tenho esses rompantes em todos os meus muitos e muitos projetos. É sempre do mesmo modo: euforia inicial, leitura desenfreada pelo assunto, ideias surgem aos montes, o tema se fortalece, a compreensão vem e, então, o balde de água fria: há sempre alguém que já faz o que você pretende e, o pior (ou melhor), com maestria.
Então me frustro, sou tomado pela apatia, me fecho e vem a raiva. Caio em um casulo escuro e passo semanas com dias salpicados de frustrações. É uma montanha russa de sentimentos e comparações que só a metáfora astrológica da tal da lua em gêmeos pode ilustrar. Não é uma depressão ou melancolia, entende? É só a sensação de impotência, de que os outros estão muito à frente.
Não há um truque para sair dessa. Apenas observo atentamente e espero. Vou olhando a vida, aguardando uma mensagem mágica. Às vezes é rápida, às vezes é demorada. Mas é certo, ela vem. E surge sempre com a energia, a força, a porrada na cara necessária para acordar e mandar todas essas paranoias sem sentido aos infernos.
Assim, a minha veio esses dias. Cheguei em casa cansado, fui para o meu pequeno escritório (Estação Aconchego, para os íntimos) e saquei da estante O Poder do Mito, de Joseph Campbell, que já começa com “Follow your bliss and the universe will open doors where there were only walls/Siga sua felicidade e o universo abrirá portas onde só havia paredes”.
Fiquei logo esperto, ligeiro. Senti o cheirinho suave da serendipidade por perto. O prenúncio de algo libertador estava por vir. É comum me esquecer que tenho um mundo de sabedoria no meu cubículo. Eles estão ali, sempre à disposição. É só tocar e puxar um. Então vem o primeiro insight:
Coaches de carreiras e outros babaquices do gênero não existiriam se todos lessem Campbell.
Se ele fosse leitura obrigatória, quem precisaria de um guru autoproclamado quando já se tem um guia interior, uma bússola cósmica fornecida pelo próprio mestre da mitologia?
Entenderíamos que nossas vidas são épicas em si mesmas, cheias de desafios, provações e, claro, recompensas. Ele nos ensinaria a reconhecer nossos arquétipos, a encontrar significado em cada fase da nossa jornada e a ver os obstáculos não como barreiras, mas como oportunidades de crescimento.
Seríamos todos protagonistas das nossas próprias sagas, cientes de que o verdadeiro segredo do sucesso não está em um manual motivacional de autoajuda, mas nas histórias atemporais que ressoam em nossa psique.
Com Campbell em nossos corações, a busca por sentido e propósito seria muito mais autêntica e pessoal, deixando as “mentorias” de gente pilantra para trás. Teríamos um enredo muito maior e emocionante.
Assim sendo, querida e querido peregrino deste universo, hoje vos digo: eu e você devemos ser tudo aquilo que apontam como feio e estranho. Porque esse feio e estranho é a nossa essência. A força que nos faz únicos.
Não ouse se comparar e tentar ser a disrupção alheia. Seja a sua própria disrupção. Ser e gostar do que é. E se a tua letra for horrorosa, ame-a assim mesmo. Ela é a materialização de uma essência rebelde e insensata esculpida ao longo da sua vida a partir de suas vivências, as boas e as ruins.
Não ouse fazer sentido para quem espera o diferente dentro dos padrões. Puxe para fora do seu coração a pergunta incômoda necessária e ainda não articulada que vive no inconsciente coletivo.
Vá aonde o seu corpo e a sua alma desejam ir. Não há nada com o que se preocupar.
Você já está nu, você já está morto.

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