Capa: François Truffaut lendo The compleat liar, de Penny Vincenzi.
Não quero parecer arrogante, mas fazer uma crônica é fácil. Difícil mesmo é escolher um bom tema.
Melhor dizendo, encontrar uma pedra qualquer no chão é fácil. Polir ela até virar ouro é onde está o segredo.
Tive esse insight dia desses e achei-me genial. Mas que nada, logo caiu em minhas fuças como sopapo brutal, a introdução de As cem melhores crônicas brasileiras, do jornalista Joaquim Ferreira dos Santos:
“O fato escolhido como tema era desde o início um detalhe de somenos, uma desimportância qualquer, um pretexto reles para que o escritor, esse vira-lata talentoso, viajasse a pena e desse uma geral na humanidade”.
Falou o que eu queria falar, mas melhor.
Temos aqui, mais uma vez, a importância de observar os detalhes e o valor da criatividade que surge das origens mais inesperadas.
Leio crônicas desde a época do colégio e parece que nunca aprendi a escrevê-las direito: até o momento, não consegui fazer uma que massageasse meu ego. Uma que meu cérebro me elogiasse dizendo “Finalmente desceu pro play, hein, moleque?”.
É como se tivesse um bloqueio interno, uma placa gigantesca no meio da estrada, com letras garrafais gritando “Bicho, tu é um completo idiota”.
E se eu for em busca de um coach para ver se me desbloqueia? Certamente ele dirá que a culpa não é minha, mas do meu mindset. Seria ótimo ouvir isso, assim poderia culpar o mindset na próxima vez que eu escrever porcarias.
Acredito que não adianta nada ler livros. O que faz a diferença de verdade é a constância em um tema. Afinal, o seu amigo que toca violão ou aquele outro parça mestre churrasqueiro (dois seres que em qualquer festa de desconhecidos acabam sendo o centro das atenções) não ficaram bons em seus respectivos dons apenas assistindo vídeos no YouTube.
Devore uma estante de clássicos e ainda assim vai se sentir um novato. Mas a prática contínua, a dedicação diária, esses sim, seriam os itens que transformam conhecimento em sabedoria.
É o compromisso de se aprofundar em um tema, de revisitar as mesmas ideias até que se tornem parte de você. Daí, voltando ao universo dos coaches, algum canalha da espécie diria: “Viver, respirar e praticar suas paixões dia após dia, até que a excelência se torne um hábito” (Credo, que horror).
Olha eu aqui mais uma vez, me repetindo, dizendo que escrevo mal, que não sou quem eu acredito ser: um leitor voraz, um escritor inventivo e profícuo.
Deixei essa bobagem para trás assim que revi o documentário “Filhos de João, O Admirável Mundo Novo Baiano”. Há um trecho em que Moraes Moreira revela que quase abandonou a carreira musical quando viu João Gilberto tocando em sua frente. Compreendi completamente.
Se vejo os textos incríveis de Raffaella Silvestri, tenho vontade de me posicionar em modo fetal e chorar, já que nunca chegarei ao nível dessa mulher. Mas assim como Morais, melhor não desistir, apesar de titubear.
Nada de açoites comparativos. A história de cada um é única, temperada com desafios ímpares. A base pode ter sido torta, sim, mas isso não define nada.
A vida é uma escalada épica, e cada um tem sua própria muralha, com obstáculos personalizados. A minha pode até ter vindo com uma camada extra de dificuldade, mas isso pode significar também que posso usar como um bom material para fins incríveis.
Precisamos internalizar que, quase tudo na vida, é bom ou proveitoso. Nossos desafios e tropeços devem ser transformados em histórias fascinantes. E, claro, vencer aquele infeliz bolinador que sempre põe o pé para tropeçarmos e que toma forma todas as vezes em que encaramos um espelho.
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Sabe, ultimamente eu tenho tentado voltar a escrever mas estou me sentindo tão ruim nisso… Ainda mais lendo textos bons, como o seu. Ao mesmo tempo que senti que jamais conseguirei escrever bonito assim, seu texto me deixou motivada a continuar tentando. Risos. Faz sentido? Não sei, mas adorei. Muito grata!
Não se deixe abalar. Como eu disse aí em cima, é um exercício chato e árduo. É tipo ir na academia: tem sempre alguém mais forte e definido que a gente. Escreva, Pudima, escreva. Não para o mundo, mas para você!