Uma reflexão nostálgica e emocional sobre uma experiência marcante no ano de 1999.
Há 25 anos eu estava na falida Livraria Saraiva do Shopping Iguatemi de Salvador. Batia ponto por lá, sábado sim, sábado não, logo depois de alguma sessão de cinema.
Já tínhamos internet, mas ela se limitava ao computador, no quarto ou na sala. Não nos oprimia colada ao nosso corpo.
Me empanturrava de mídias físicas e deliciosas: livros, quadrinhos, DVD´s, CD´s, discos e tudo o mais que se possa pegar com as mãos, sentir na pele, nos dedos, no nariz. O digital era só uma promessa que demorou um pouco para acontecer.
Mas este dia, em específico, era um daqueles que eu ia na sessão de CD´s da livraria para garimpar e ser surpreendido por algo que não conhecia. Havia uma tecnologia nova e fabulosa: totens de quatro lados com seus respectivos fones e leitores de códigos de barras. Você pegava um álbum, escaneava a capa e começava a tocar faixa por faixa para degustação.
Lembro que eu estava com uma ressaca cultural de tudo. Os 90 estavam acabando, tinha sido uma década incrível, principalmente na música. Nada era mais empolgante. Tudo se repetia.
Então vi aquela imagem de um homem careca pulando.
Um verde musgo tela de computador dos anos 70. O título era um verbo mandatório: Play. Me chamava por meio de sua mensagem icônica secreta: “Toque-me e experimente o futuro”.
Ajustei os fones. Veio a primeira faixa. “Honey” começa de modo repetitivo. Achei ok. Boa introdução. Passei para “Find My Baby” e as coisas começaram a ficar estranhas. Um vocal blues/gospel com batida dançante? Mas que diabos é isso? Então vem o arco da canção, que cresce e cresce e não se sabe onde vai parar. Guitarras rock com slides. Backing vocals magníficos apenas gritando infinitamente “Yeah, yeah, yeah…” Muito bom. Puta merda, que bagulho bom.
Eu sabia que algo estava acontecendo, eu sabia que tudo a partir daquele momento ia mudar. Então veio a catarse em meio a acordes invertidos de violino: meus ouvidos estavam sendo beijados pela primeira vez por “Porcelain”. Batida dance das antigas. Piano minimalista e lindo. Sampler de vocal de música de antigos plantadores de algodão dizendo “oh, Lord, stand by me”. Moby canta: “In my dreams, I’m dying all the time\ When I wake, its kaleidoscopic mind\ I never meant to hurt you\ I never meant to lie \ So this is goodbye\This is goodbye…”
A loja estava iluminada, cheia de pessoas, e eu entendendo que a cidade e minha antiga vida tinham que mudar. A música me abraçou como um anjo. Me senti confortável. Fechei os olhos. Nada parecido tinha acontecido antes. Eu precisava daquilo.
Então vem “South Side”, super, mega dançante, apoteótica, linda. Um incentivo ao movimento, a quebrar regras, paradigmas, viver tudo o que tinha para viver. Abandonar o que não fazia mais sentido. Ser inteiro, além da minha antiga cidade, de suas pessoas mesquinhas.
Depois, parei. Não quis ouvir mais. Era o bastante. Aquele já era um dos discos da minha vida. Uma obra de arte que seria usada à exaustão em filmes e comerciais diversos. E sem ficar datado ou envelhecer mal. Porque tudo o que transcende o óbvio será lembrado, será moderno.
Atravessei a antiga passarela da rodoviária para voltar para casa. Nas mãos, o saco amarelo e um CD. Um gosto bom de satisfação, da certeza de momento único. Não era apenas um álbum, era uma explosão de criatividade e referências.
“Play” era e ainda é uma boa metáfora de que vida é feita de experiências, de buscar o novo e o extraordinário, de nunca ter medo de mesclar, mudar-se todo o tempo, “a cada faixa”. E de que um acontecimento realmente importante não vem sempre ao nosso encontro, quanto mais duas vezes.
Por isso, estejamos atentos. E aproveite a sua vida.
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