Aqui estamos, meus amigos, na ressaca do pós carnaval do Ano do Senhor de 2024. Tudo de bom e ruim que tinha que acontecer, aconteceu. E, como sempre, presto uma homenagem ao poema “Sonho de terça-feira gorda”, de Manuel Bandeira.
Estes versos tão marcantes em minha memória estão em “Carnaval”, publicado em 1919, que fala sobre a terça-feira gorda, também conhecido como terça-feira de Carnaval. Antecede a quarta-feira de cinzas, marcando o início da Quaresma. Durante o período, a Igreja Católica prescreve um período de jejum, tornando-se o último dia em que as pessoas podem desfrutar livremente de alimentos antes do período de abstinência e se esbaldar com tudo.
No poema de Bandeira, somos conduzidos ao sonho do eu-lírico narrador do poema. Ele relata sonhar que estava, possivelmente, com uma mulher, ambos vestidos de preto em uma terça-feira de Carnaval. Observam as multidões fantasiadas passando, a agitação, as prostitutas seminuas e embriagadas, enquanto eles caminham de mãos dadas, cheios de alegria.
Desde a primeira leitura sempre achei o texto muito imagético, e via como um final de uma história fantástica, gótica, desse casal de “ar lúgubre” andando sérios em contraste com a multidão totalmente desnorteada e colorida. Lindo, lindo, lindo.
Nos tempos vigentes, de ferramentas mil, quase mágicas, que dão vida à nossa imaginação, por que não recriar este clássico em imagens?
SONHO DE UMA TERÇA-FEIRA GORDA
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros,
[ e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão constatados pelo sentimento felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava… Que nos penetrava como
[uma espada de fogo…
Como a espada de fogo que apunhalava as santas
[extáticas.



E a impressão em meu sonho era que estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente negro,
— Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro
[ e luminoso!


Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.

Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes — Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas — deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.


A turba, ávida de promiscuidade,
Acotevelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhes flores.


Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negro, negros…
mas dentro em nós era tudo claro e luminoso!


Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
— A profunda, a silenciosa alegria…
Manuel Bandeira
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