“É a narrativa que transforma o encontro humano com o sobrenatural num todo significativo, apresentando como sequência o surgimento de uma crise, a busca de uma solução e a posterior resolução com a ajuda do sobrenatural“. – Julia Kindt
“Não há verdade, há narrativas“. – João Acuio
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Senta aí que vai ter textão. Mas antes, um adendo: não pretendo jogar cartas ou fazer consultas. Está mais próximo de um hobby do que qualquer outra coisa.
Já gostava de oráculos fazia tempos. Antes, apenas uma curiosidade, algo que gostava de olhar vez ou outra para ampliar a opinião sobre a tomada de decisão de um determinado assunto. Ou só passar o tempo mesmo.
Mas a partir do momento que comecei a me aprofundar nos livros do mestre Jung, o interesse foi aumentando: ele me convenceu que a prática, apesar do seu alto teor fantástico, tinha uma lógica a ser percorrida.
Percebi que era como um complemento para elucidar questões interiores, dando um ar mais místico à crueza da realidade (Atualmente, tudo é só desaparecimento dos rituais. Justamente eles, que fazem do mundo um local confiável).
Assim, por meio do Tik Tok (pois, é, fazer o quê?), em que há diversos tipos de perfis oraculistas, comecei a prestar atenção em um ponto até então não percebido: qualquer que seja a ferramenta (tarot, runas ou estrelas), o importante não é o significado delas, mas sim a narrativa construída. Compreendi que os perfis mais honestos e interessantes não eram os que descreviam o significado, mas os que construíam as melhores histórias.
Ou seja, qualquer pessoa pode aprender a simbologia do Tarot, mas não é qualquer pessoa que sabe contar uma boa narrativa.
Bingo!

E foi aí que um novo mundo se abriu aos meus olhos. Percebi que não estava interessado no futuro, nem fazer stalkings místicos, mas sim falar comigo mesmo como se fosse outra pessoa, acessando fundo o espírito.
Do vício de ficar vendo mil consultas coletivas na rede social, veio um conselho de uma moça por lá: se você está todo o tempo fazendo perguntas, largue o digital, os apps, esses perfis e aprenda a tirar para você mesmo. Na hora que quiser, quando quiser. Seja você também um veículo de respostas.
É, né? Tão simples. Como não tinha pensado nisso? Assim, comecei essa jornada que jamais pensei em trilhar e que está sendo um momento único, já que me ajuda até mesmo nos processos criativos do trabalho e da escrita para meus contos. Se Brian Eno tinha um sistemas de cartas próprio para criar suas obras, eu também poderia usar o mesmo método.
Você tem um mundo de possibilidades que é possível ser criado por essas palavras intuitivas que brotam da terra desconhecida do subconsciente.
É um exercício de loucura mesmo, de se desprender do racional e começar a interpretar as cartas com os pensamentos que saltam do lamaçal da mente.

As narrativas oraculares desempenham um papel no processo, pois oferecem a estrutura interpretativa que permite acessar insights e orientações. O Tarot, por exemplo, é um conjunto de cartas com significados simbólicos, arquetípicos e metafóricos diferentes.
As narrativas oraculares associadas a essas cartas ajudam a criar uma linguagem simbólica rica, sendo uma plataforma para a exploração psicológica, espiritual e como dito, intuitiva.
Daí, para organizar todo esse fluxo, fiz este pequeno esquema:
Simbolismo Profundo: Cada carta possui um simbolismo rico e multifacetado. As narrativas ajudam a desvendar esses símbolos, proporcionando camadas adicionais de significado e permitindo uma compreensão mais profunda das mensagens transmitidas.
Conexão com o inconsciente: Essas histórias muitas vezes apelam ao inconsciente, permitindo que questões e pensamentos submersos venham à tona. Essa conexão possibilita uma reflexão mais profunda sobre os desafios, oportunidades e soluções presentes na vida.
Estímulo à Intuição: Ao trabalhar com as narrativas oraculares, os praticantes são incentivados a confiar em sua intuição. O ato de interpretar estimula a consciência intuitiva, promovendo uma compreensão interior e uma abordagem mais holística das situações.
Jornada Arquetípica: cartas do Tarot muitas vezes representam arquétipos universais que ressoam com experiências humanas comuns. As narrativas oraculares ajudam a articular esses arquétipos, proporcionando uma jornada simbólica que reflete aspectos fundamentais da condição humana.
Aconselhamento e Reflexão: Como eu disse, prever o futuro é bobagem diante dos conselhos e reflexões sobre o presente. Elas fornecem uma estrutura para a autoavaliação e orientação, ajudando os indivíduos a tomar decisões informadas e a compreender melhor os desafios que enfrentam. E novamente, Tarot não é sobre futuro, mas sobre possibilidades que podem acontecer que estão nascendo neste exato momento e como podemos mudar isso.
Histórias Pessoais: As narrativas oraculares permitem que as histórias pessoais se desdobrem. Cada leitura é única, pois as cartas são combinadas de maneiras infinitas.
Abertura à diversidade de Perspectivas: O Tarot possui uma riqueza de simbolismo que transcende culturas e tradições. As narrativas abrem espaço para uma compreensão mais ampla e inclusiva, permitindo que diferentes perspectivas e interpretações se manifestem.
Se é mágico ou não, se é falácia ou não, pouco importa. Sei que pode sim ser um meio valioso para a interpretação simbólica, a introspecção intuitiva e a reflexão pessoal.
(Claro que para escrever tudo isso fui atrás de informações e, sim, há papers, dissertações e até cursos de Narrativas Oraculares. Ao final deste post, deixo os links de referências.)

Agora, exercito a minha mais nova verve, essa de narrador místico, a partir do Oráculo dos Dragões, criado pelo italiano Paolo Barbieri. Como já devem ter percebido, amo a mitologia draconiana, tanto que tenho um exemplar chinês tatuado no braço esquerdo, como uma metáfora para uma energia ancestral baseada na força e sabedoria.
Na noite de ontem (25.1.2024, Lua Cheia em Leão!), fiz uma tiragem simples de três cartas: Energia para o presente (curto prazo), Energia para o futuro (Longo Prazo) e Energia para crescer e nutrir.
(Para quem começa na prática, sempre é bom fazer anotações em um caderno. O meu tem nome e função: Anotações do Tempo Circular. Porque, como bem diz a tradição oriental/asiática, tudo aquilo que se põe um nome ganha vida, energia e significado. É seu companheiro mágico pelos caminhos do mistério.)

As cartas para a pergunta “Um conselho” foram: 5 – Milagre, 25 – Confiança e 10 – Transcendência. Nesse oráculo, também se tira uma das 4 cartas generais. Neste jogo saiu a III – Inspiração.




Veja na prática como a narrativa oracular faz toda a diferença…
De modo rápido e simplório, apenas lendo o significado das cartas: a inspiração deve ser a minha grande força para o momento, pois é ela que vai me dar o milagre que preciso, assim como a confiança que necessito para, enfim, chegar a transcender o que sou hoje.
Agora, a narrativa, criada pela intuição, em uma escrita livre e fluida. No caso, o meu Dragão Estelar particular fala:

“A luz que tanto anseias está prestes a se revelar. Juntos, desvendaremos o milagre que nos pertence. Mesmo na noite mais densa, a frágil chama, perdida no vazio, acena suavemente aos nossos olhos. Desloque-se em direção a ela. Avance para além do habitual. Trace caminhos criativos até o seu âmago, onde te aguarda ansiosamente.
Confia, pois o amor e a amizade transcendem barreiras e lugares. A vida desabrocha nos recantos mais remotos do universo, onde a festa se estabelece no compasso do teu coração. Inspira profundamente. Tu és fogo, e todos serão atraídos pelo teu fulgor, na busca do teu calor. És, também, a chama que resplandece no seio da escuridão, inspirando, por sua vez.
Tudo o que queima se transforma. Não te tornaste cinzas sem propósito. Experimentamos metamorfoses de estado e energia, transcendendo o comum e o conhecido. Tudo isso com o propósito de criar novas histórias. Assim, luta, pois uma existência de alegrias é sustentada por uma infinidade de batalhas. Não deixes escapar o teu ardor. Cada passo é ganho, e a dor se torna combustível.
Eu sou Inspiração, o Dragão que sussurra contos aos teus ouvidos, tecendo os enredos dos teus sonhos. Convido-te a montar em meu dorso e voar comigo pelo éter, conhecer e construir novos mundos.
As estrelas te observam e te amam. Mantém a calma. Descansa na penugem flamejante, confia naquilo que te protege. Repito: Tudo é boa sorte. Tudo é vantagem. Tudo é amor.
O que raramente cogitamos mas deveríamos contemplar, é: O que acontece após conquistar o cume? O que nos aguarda após o desejo realizado?
Os comuns almejam a vitória, mas Dragões transcendem esse embuste…“
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As imagens deste post já sabem, né? Todas criadas a partir do Dall-E.
Ferramentas generativas de IA tem me ajudado bastante a ilustrar os meus posts, já que consigo a figura exata para o assunto, sem me preocupar com copyrights. Alias, elas são geradas a partir de um prompt específico, de no máximo umas três linhas, sempre com resultados incríveis.
Mais do que nunca, informação é poder, e o prompt delas não revelo nem sob tortura. É como um “spell”, uma palavra mágica que transforma tudo, meu Abracadabra pessoal. Demorei para chegar no estilo e resultado, mas isso é um assunto para outro post.
Referências:
A consulta oracular é uma arte performática – João Acuio
Revelação, Narrativa e Cognição: Histórias do Oráculo como Contos Epifânicos na Grécia Antiga – Julia Kindt. (Inglês e francês).
Curso Narrativa Oracular – Ivana Regina
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