Já tinha gostado bastante da parceria entre Gal Costa e Marília Mendonça, no feat “Cuidando de longe”, mas, Deus do céu, Tim Bernardes interpretando ao lado da Jazz Sinfônica de São Paulo é de causar disritmia. É outra coisa, é outra dimensão.
Desconhecia a versão. Foram os seres bons que vivem dentro do algoritmo do Youtube que me mostraram um dia desses.
Não há humano na face da Terra que não se arrepie com a beleza desta canção e ainda mais com estes arranjos primorosos. A apresentação foi um Tributo a Gal Costa, na Sala São Paulo, em novembro de 2022.
Se você prestar atenção na plateia, dá para sentir a energia do momento, a emoção tomando conta do lugar, tudo muito discreto, assim como o jeito do Tim cantar: suave, leve, mas te pegando aos poucos e fazendo voar.
Sempre elejo a música do ano, e isso não tem nada a ver com algo novo, é mais sobre a que melhor marcou. E com certeza absoluta essa é a faixa de 2023, que trouxe tanto e também levou outro tanto.
E Marília Mendonça, que mulher! Como uma pessoa tão jovem criou letras tão profundas? Me pergunto que eventos em sua vida rápida deram tantos temas para criar composições tão fortes. Não à toa ela é sim a grande dama, rainha plena, da tal sofrência, esse nosso Mal do Século do atual Zeitgeist.
Apesar do peso, da perda, da angústia da letra, a harmonia transforma a história em uma esperança boa danada, um gosto bom de ser humano cheio de erros, inseguranças e dúvidas saborosas, quase um prazer de olhar de longe, do alto da impossibilidade de tudo e sorrir com o coração tranquilo.
Porque você é humano, e quando se mostra imperfeito para o mundo é quando realmente se torna alguém forte. É muito mais difícil assumir as suas dificuldades e fragilidades do que posar de perfeito o tempo todo, algo impossível.
(Esse pensamento não foi criado por mim, mas sim da cientista social Brené Brown. Aliás, a palestra dela no TEDx é um clássico. Confiram O poder da vulnerabilidade no Youtube. É só ativar as legendas.)
Tem tanta gente que “não enxerga o seu avesso”, avesso que é sim a “parte mais bonita” da pessoa, mas que fica escondendo “por detrás do seu cabelo”.
O mais incrível disso tudo é que no mesmo dia tinha lido uma crônica nova do Carpinejar em que ele dizia que “O luto é isto: uma solidão a dois”, que vai de encontro com o chute na porta da primeira frase da letra: “Amar sozinho também é amor”.
Viva a Gal, Viva a Maria Mendonça e viva ao Tim Bernardes, que deu uma sobrevida a essa maravilha. Eu queria acrescentar algo melhor a esse texto, mas Carpinejar é mais sábio que eu:
O luto é a maior resistência da afeição. Porque você não tem direito a receber mais nada do outro – nenhum abraço, nenhuma visita, nenhum colo, nenhum favor, nenhum apoio, nenhuma recompensa, simplesmente nada – e segue amando-o infinitamente.
É uma sobrevivência emocional feita exclusivamente do ato de dar, do gesto incondicional da oferta, descompromissada de segundas intenções, desvinculada de benefícios diretos, desligada de interesses egoístas.
A saudade anda para a frente, não para trás, como cremos. A gratidão do passado empurra a saudade para o futuro, para acrescentar sensações e impressões à amizade antiga.
Quando o contato é sincero, quando a intimidade é honesta, não se deixa de gostar de alguém após a despedida. A emoção da primeira vez não cessa de renascer.
A perda, portanto, não traz um vazio. Traz tudo, menos um vazio. Você transborda de lembranças. Passa a apresentar uma hipersensibilidade, percebendo os mínimos tremores e arrepios do universo. Não é capaz de escolher o que sentir de tanto que sente, de tanto que está presente por dois.
A gente somente consegue se despedir de alguma coisa porque, a partir desse momento, carregamos a coisa dentro de nós.
A vida é massa!
Feliz Ano Novo!
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