Ano passado fiz um desses testes de personalidade profissional para uma determinada empresa, esses sobre o que você é e que de algum modo vão usar contra ou ao seu favor para te contratar.
Aquele com algoritmos brincantes, cheio de firulas, alvo de críticas por muitos candidatos que se sentem desumanizados no processo seletivo e com um plus que faz toda a diferença: não levam em consideração as habilidades e experiências únicas de cada indivíduo.
Depois de uma bateria de testes, uma pergunta auspiciosa: “Qual é a sua essência?”. Olha a desgrama!
Pensei: essa alguém vai ler. Os bots não evoluíram cognitivamente para compreender respostas filosóficas, quase espirituais.
Mas um adendo rapidinho aqui (dois altos, na Bahia): sempre me lembro de uma entrevista que participei para um cargo e a recrutadora de pronto:
Qual seu signo?
Leão!
Ah…(expressão de preocupação no olhar e leve repulsa no lábio superior).
A questão aqui é que, o primeiro e o segundo método tem as mesmas bases nada coerentes e nada lógicas.
Conheço pessoas absurdamente complicadas que são maravilhosas e entregam um bom trabalho. Conheço pessoas calmas e aparentemente leves que fizeram um estrago medonho na mente de outras pessoas.
Meus melhores amigos de trabalho foram os que eu não fui com a cara em um primeiro momento. Aprendi as melhores lições com gente difícil, amarga, mas que sabia o que estava fazendo. Isso não significa que elas irão te humilhar ou criar situações de violência psicológica e assédio. E se acontecer, claro que está errado e deve ser punido (pelas leis ou com um murro na cara. Não, mentira, não façam isso!).
A diversidade das mentes é um plus desgraçado. Se fulano é falador e sicrano só fica no seu canto, isso é bom demais. O importante é abraçar todo mundo e fazer se sentir parte daquilo. Essa gama de personalidades só acrescenta. O resto é só sucesso e litrão no bar para jogar conversa fora.
Dito isto, comecei a montar a resposta com um argumento profissional de praxe, mas que depois me deu uma certa raiva irônica, achando tudo um desperdício de tempo e daí avacalhei mesmo, acabando em um fluxo de pensamento que ficou tão legal aos meus olhos que copiei e guardei o texto para uma ocasião melhor.
Claro que, se alguém leu aquilo ali, não entendeu nada. Mas valeu pelo “terrorismo poético”.
“Qual é a sua essência?”
“Busco ângulos diferentes para assuntos comuns e casuais, inserindo elementos humanos, leves, que levem à reflexão ou emoção.
E eu olho no olho. Seja lá de quem for. É como se apaixonar. Porque eu tenho uma curiosidade imensa pelo outro. Sei que por trás de todo mundo tem uma história que o construiu e o trouxe até a minha presença naquele momento. Pode ser apenas por um segundo, mas todo olho me diz alguma coisa.
Olho é QR Code da alma, carimbo de vivências estranhas, singelas ou violentas. E sempre levo alguma coisa disso: um aprendizado, uma história, um jeito para imitar, um jeito para evitar, uma pessoa para odiar.
“Bad Decisions Make Great Stories”. Decisões erradas fazem grandes histórias. Li a frase numa jaqueta de um sujeito que jogava baralho de cócoras em cima de uma cadeira, num bar chinês, no bairro da Liberdade, em São Paulo.
A cena, pitoresca por demais, parecia um frame de filme cyberpunk com suas influências orientais. A imagem pulou nos meus olhos de imediato, evidenciando que aquilo não tinha sido em vão. Ainda mais aqui nesta minha mente, onde habitam mil e uma histórias e crenças mágicas.
Nesta dimensão paralela que é meu cérebro, nada passa despercebido. Tudo é simbólico. Eu sei, não sou o único. Mas gosto de dizer que cultivo esses hábitos.
Com um significado certo, uma topada tiradora de tampão do dedão do pé pode tomar significados quânticos, com níveis de efeito borboleta catastróficos.
Há pessoas que leem cartas, búzios ou estrelas. Eu leio a cidade, os pixos nos muros, as pessoas nas ruas, as bicicletas estacionadas, os odores dos restaurantes, cartazes de artistas gráficos underground fragmentados sob a ação do sol, chuva e tempo.
Lixos, pombos, céu, fios elétricos, cachorros sem donos.
Eu leio a vida!
Busco uma dica nova sobre tudo o que me diz respeito aos detalhes. No diabo dos detalhes.
Viver é morrer aos poucos. Por isso é interessante manejar o processo cheio de graça e criando os seus padrões. Um tabuleiro ouija com segredos e portais para lugares inimagináveis. A mente calma e atenta como chave para todas as respostas.
Errar a parada correta da estação de trem me fez entregar um resto de comida de restaurante para quem precisava. Errar na escolha de uma decisão, me levou até o último vagão de um metrô completamente vazio, às 23:55 de uma terça-feira de inverno.
Lá encontrei um monge hare krishna que, além de oferecer palavras sábias ao momento, me apresentou um livro inspirador que misturava receitas veganas e a filosofia por trás das práticas de yoga, ponto nevrálgico para uma mudança radical na minha vida e que amansou algumas feras dentro de mim.
Então, descobri outro padrão: todos os meus erros me tiraram muitas coisas. Mas, ao mesmo tempo, acrescentaram tantas outras. E a cada reverse, ganho um presente. Eu só espero e ele vem.
Minha essência é, enfim, amar e confiar no erro.”
E não, não fui contratado.
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