Quando você encontra uma pessoa amiga na rua ou numa festa, não começa perguntando qual é a opinião dela sobre geopolítica ou inteligência artificial. Você pergunta da vida. Se está bem. No que anda trabalhando. Se está amando alguém. O que tem ouvido, visto, lido.
Porque é assim que nos conectamos: pela experiência cotidiana. Pela narrativa pessoal. Pelo que acontece entre um dia e outro.
A gente se conecta nessa vidinha miúda, nos detalhes, nas histórias pequenas que, somadas, formam quem somos.
E um blog é exatamente isso: um lugar onde você conta sua vida em capítulos abertos, e permite que estranhos se aproximem pela simples curiosidade humana.
E é aqui que entra o título deste post:
Todos deveríamos blogar mais (e nos conectar mais com estranhos!)
Blogar é desacelerar o mundo.
Um blog não pede urgência, nem exige performance e nem pune se você passar uns dias na sua, sem publicar nada. Você escreve quando tem algo a dizer. Publica quando sente que está pronto. Pode errar, voltar, editar, apagar. Pode escrever um parágrafo ruim às três da manhã ou um texto longo numa tarde chuvosa.
Daí alguém chega ali porque procurou algo. Ou porque tropeçou num link. Ou porque ficou curioso. É uma visita ativa, jamais passiva. Nunca é um scroll infinito, mas uma escolha.
Blogar é sair da lógica da vitrine e entrar na lógica da sala de estar. Não há “alcance orgânico”, mas algo muito mais maravilho: o encontro.
Conectar-se com estranhos é um gesto radical.
As redes sociais nos ensinaram a nos cercar de iguais. Mesmas opiniões, mesmos repertórios, mesmas bolhas. A desgraça do algoritmo reforçando isso o tempo todo: quanto mais previsível você for, mais ele te entrega versões de você mesmo.
Mas o blog faz o contrário porque ele abre uma porta para desconhecidos. Pessoas que você nunca viu, de cidades que você não conhece, que hegam ali por caminhos improváveis.
Elas leem sobre sua vida, suas ideias, seus tropeços. Às vezes deixam um comentário. Às vezes mandam um e-mail. Às vezes só passam… Mas tenho certeza absoluta que elas sempre levam algo!
Isso é intimidade sem vigilância, PORRA! É uma conversa massa sem mediação corporativa. É o que era a correspondência, mas agora dentro de um ambiente digital.
O mundo é maior do que o seu feed.
Por isso que eu também defendo o blog como prática artística.
Considero de verdade como uma forma de arte cotidiana. Não precisa ser literário. Não precisa ser genial. Não precisa ser profundo o tempo todo. É um caderno público. Um arquivo vivo. Um laboratório.
Você testa ideias. Observa o mundo. Anota sensações. Guarda links. Compartilha músicas. Escreve sobre um dia ruim, uma conversa boa, um filme estranho, uma lembrança da infância.
O blog afia teu olhar. Treina a tua escuta.
Blogar no modo antigo.
Enquanto big techs mineram dados, manipulam afetos e transformam a sua atenção em commodity, o blog permanece simples: Um texto.
Um autor. Um leitor.
Blogar do modo antigo (com posts cronológicos, links, comentários, RSS, páginas estáticas) é recuperar uma internet mais humana. Menos gamificada. Menos predatória. É sair do shopping e voltar à praça, escolher a profundidade em vez de engajamento.
Escreva para pessoas, não para sistemas.
Precisamos blogar mais sem a necessidade de construir uma marca pessoal, monetizar o pensamento ou parecer interessante.
Precisamos existir fora dos jardins murados para deixar rastros honestos. Para trocar ideias com desconhecidos e lembrar que a internet também pode ser feita de silêncio, de tempo e de atenção.
Ok, eu sou um emocionado e tenho consciência que um blog não muda o mundo. Mas muda a forma como você habita ele. E, honestamente, já é um ótimo começo.
E se você tem um blog e ainda insiste nele, derramando sua vida, moderadamente ou não, com regularidade ou aos solavancos, saiba: você está, sim, caminhando na contramão de uma estrada torta, pavimentada por big techs que tentam nos reduzir a métricas, perfis e padrões de consumo. Você decidiu não ser uma peça de uma sinistra fábrica de pesadelos.
Eu não sei seu nome, nem de onde você vem. Sei apenas que você atravessou a margem. Você é um estranho.
Mas, de algum modo amavelmente silencioso e improvável, você é meu amigo.
E como bem disse o Cris Dias, em 2026 eu desejo que você tenha um blog!
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Que texto maravilhoso! Amei! Estou um pouco mais distante da escrita e de leituras aqui do blog, mas tenho sentido muita falta daqui. O universo dos blogs é a rede social mais gentil pela qual transito, é um respiro nesse mundo tão turbulento. Precisamos blogar mais e gerar essas conexões ♥ obrigada, amigo!
Tamo junto!
É ISSO PORRA! Desculpa, também fiquei empolgada. Mas sério, que post maravilhoso. Queria imprimir esse teu texto e sai por aí colocando nas paredes para que mais pessoas vejam. Que bonito é estar indo contra essa velocidade enlouquecida que se tornou a internet hoje com as bigtechs e redes sociais. Blog é um respiro tão necessário! ❤
https://nyrtais.blogspot.com/
ahhahah, que demais. fico muito feliz com esse feedback!
Vamos continuar!