Sou um stalker de filmes, séries, música e outros produtos culturais. Desde sempre. Quando muito criança, lendo as letrinhas pequenas de quem fazia o quê nas revistinhas da Mônica. Quem escreveu, quem diagramou, quem levou e trouxe coisas. Aquelas letrinhas miúdas no final de tudo.
Em filmes, mesma coisa. Mal aparecem os créditos e já estou abrindo abas como um detetive em crise de ansiedade estética. Quero saber o que a Folha pensou, o que o Estadão disse, e se alguém no Letterboxd usou a palavra “sublime” com ironia ou má fé.
Foi o caso de Frankenstein, do Guillermo del Toro, produção que, segundo os jornais, é “irregular e belo” (tomar no cu, trampo da porra sem CGI, no pelo, na mão grande. Irregular é a circunferência da caceta do jegue, porra. Diz logo que achou uma merda). Traduzindo do dialeto crítico, quer dizer: ninguém teve coragem de dizer que amou, mas também não quer parecer insensível ou emocionado demais. Já o Guardian chamou de “luxúria visual”, expressão que normalmente se aplica a filmes em que nada acontece, mas o bojo é bonito para a gente admitir.
E leio essas coisas com um misto de fascínio e culpa. Fascínio porque as críticas são como espelhos tortos. Ou seja, cada uma mostra um reflexo diferente do mesmo monstro/pessoa que escreveu. Culpa porque, no fundo, sei que busco ali uma forma validar o que senti. O crítico escreve “melancolia gótica”, e penso: “Me sensibilizei com a criatura como nenhum outro já lançado.”
Se me emociona, qualquer produto é bom aos meus olhos. Esse é meu único parâmetro. O resto para mim é punheta, posto que sou um homem da classe trabalhadora, bato ponto todo dia, engulo sapos diversos, limpo o cocô do moleque e não tenho tempo para comparar pintos, digo, cérebro, digo, opinião. Só quero saborear o produto enquanto desço umas cervejas pela goela. Me arrepiei? Bom. Passou batido e era melhor ter assistido ao filme do Pelé? Ruim.
Voltando: sei que meu esporte intelectual favorito é vasculhar a mídia. Há quem vá à academia, mas eu fico comparando adjetivos entre veículos de imprensa. É cárdio mental e um pouco de diversão também. Que loucura é ter um trabalho em que você deve encher linguiça e criar sha-lá-lás diversos sobre uma história, né? Fora que aprendo umas nuances escrotas ótimas como dito acima.
O legal é que, a fina arte da caça às críticas não é sobre o cinema. O que busco não é o que del Toro filmou, mas o que o mundo fez do que ele filmou. É ali que o verdadeiro Frankenstein vive: na colagem de vozes, na costura de opiniões, tudo o que surge quando o olhar alheio acende o nosso.
E eu sigo vasculhando, porque há os que se satisfazem com o filme. Eu prefiro o pós-créditos, o espetáculo de ver como cada um tenta nomear o que não entendeu completamente.
Para deixar bem entendido, amei com o peito rendido, diria os de outros tempos. E acrescento que, no desfecho, bem atrevida e importuna, saltou-me dos olhos uma lágrima insolente. Olha que desgraça!
Que fazer? Sou filho dileto da mais pura breguice, pecado doce que nem o diabo ousa censurar.
Já dizia o meme: Se alguém falar mal de você pelas suas costas, peide!
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Daí fiz uma lista com o que a imprensa tem falado, focando no que achei relevante.
- Chama o filme de “uma leitura” da obra clássica de Mary Shelley, e não uma adaptação literal. Verdade.
- Destaca que del Toro “é um romântico com profunda apreciação pelo macabro” e que suas criações “são coisas de estranha beleza, assombrosas, poéticas e inesquecíveis”. Não achei tão macabro assim, apenas triste.
- Elogia o visual: “imagens luxuriosas”, “detalhamento filigranado do período”.
- Diz que a criatura assume a narrativa em certa parte, o que “é o relâmpago que sacode o filme para alguma forma de vida”. Muito verdade.
- Ressalta que del Toro pega a história de Shelley, acrescenta muitas de suas obsessões visuais e temáticas, e faz do filme algo muito seu. Não tinha como ser diferente.
- Nota que a relação pai/filho aparece como metáfora central: o cientista vira um “pai” que negligencia sua criação.
- Aponta que o filme “reimagina” o clássico e humaniza a criatura. Ele não é só horror puro, há camadas emocionais. Foi o que eu disse.
- O crítico afirma que Del Toro imprime à história de Mary Shelley um romantismo gótico inconfundível, combinando visual e emoção de forma intensa. Aí eu achei demais. Acho que as pessoas esqueceram o que é gótico. Ao contrário, tem muita luz, cor, energia e mesmo assim é assombroso. Mas gótico, sei lá. Também ele fala sobre deleite. Olha, vou nem falar nada.
AdoroCinema (Essa é a melhor e mais real das críticas aqui listadas)
- Reconhece que o projeto era “dos sonhos” de Del Toro e que sua sensibilidade casa bem com personagens em crise, com humanidade, perversão, romance e incerteza.
- Mas também aponta alguns “deslizes” na trama que impedem o filme de atingir todo o seu potencial.
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