Ken Wynne, Joan MacArthur e Edward Atienza como as três bruxas em Macbeth (1952), dirigido por John Gielgud.
Voltei a trabalhar com cultura.
É curioso como a gente pode até tentar viver longe do próprio eixo, mas cedo ou tarde algo puxa. Como gravidade. Como memória. Cedo ou mais tarde o amor vai te foder um dia!
Hoje trabalho num grande teatro aqui de São Paulo. Sim, aquele, com h mudo e eco histórico, mas não vou citar o nome completo. Não quero cair na malha fina do clipping e ter alguém me olhando torto no corredor: “você tem um blog?”.
Estou de volta ao palco invisível da cultura, aquele que sempre habitei criando, escrevendo, observando. E logo de cara fui recebido por Macbeth.
A próxima produção é essa: a tragédia do sangue que não seca, da culpa que não apaga, da profecia que nunca sai da cabeça. Então estou mergulhado nisso, lendo a peça, revisitando Shakespeare, vendo vídeos de montagens antigas, entrevistas, análises. Comparando traduções como se fossem mapas de um mesmo território perdido, cada um prometendo um caminho diferente para o mesmo abismo. Tudo para criar conteúdo, mas também, percebo agora, para me reconstruir.
Macbeth é quase uma terapia forçada. Obriga a gente a olhar pra dentro, encarar ambição, paranoia, medo, poder, destino. É que arte boa faz isso: te usa enquanto você acha que está usando ela. Te devora enquanto você acha que está comendo.
Mas antes desse retorno, confesso que passei por dias sombrios. Me senti perdido profissionalmente, triturado por entrevistas que sempre chegavam ao “te daremos um retorno” e morriam ali. Bateu um medo real, visceral, de osso: e se eu não for chamado por ninguém? E se meu trabalho não importar mais? E se eu for apenas mais um nome numa lista que ninguém lê?
Eu queria muito trabalhar nesse lugar, mas também tinha medo do que encontraria lá. Disseram que as coisas estavam sinistras. Talvez eu também estivesse. E tem sido transformador. Tem sido esse retorno. Um reconhecimento no espelho embaçado.
No meio dessa fase meio confusa, aconteceu um sonho.
Sonhei com minha mãe. Mas não com a minha mãe de hoje, era ela muito mais velha, pequena, ainda mais frágil. Minúscula quase. Andando devagar. No sonho, eu a levava para a praia. O céu estava liso como lençol. O vento calmo. O mar respirando baixinho, como animal adormecido. Eu segurava sua mãozinha leve, tão leve que parecia papel de seda, que parecia vento, que parecia quase nada. E tive a sensação estranha de que, naquele momento, eu era o pai dela.
Havia ternura, mas também uma tristeza. Um aviso do tempo escrito nas entrelinhas: tudo anda. Tudo passa. Tudo muda de lugar. A gente também. Os papéis se invertem. O filho vira pai. O pai vira filho. A vida é uma roda que não para de girar.
Acordei com aquele nó. Dias depois, fui trabalhar. Macbeth na mesa. Sangue, destino, culpa, ambição. E entendi uma coisa: o teatro fala de tudo aquilo que a gente tenta ignorar, o peso da vida, a perda, o amor que machuca, a responsabilidade que sufoca. As coisas que a gente varre pra debaixo do tapete emocional e finge que sumiram. Mas não somem. Nunca somem. Ficam ali, embaixo, fazendo volume, tropeçando a gente de vez em quando.
Acho que foi por isso que voltei. Porque aqui as coisas não precisam fingir ser leves. Aqui tudo pode pesar. A arte lida com o que é, dói e sangra.
Também tive semanas em que não consegui ler uma página, nem ver um filme. Só um buraco. Silêncio. E a sensação de estar devendo algo a mim mesmo. E isso me irritava mais do que qualquer problema profissional: quando eu paro de escrever, eu me traio. E traição própria é coisa difícil de perdoar. É crime sem fiança, dívida que não prescreve.
Mesmo assim, continuei. Pequenos parágrafos. Anotações soltas. Ideias que não viravam nada, mas estavam lá, pulsando no escuro. Porque escrever não é uma escolha para mim. É o fio de Ariadne. A corda que me puxa de volta quando afundo.
Outro dia, no metrô, fiquei olhando fixamente para alguém e jurava que aquela pessoa parecia alguém do meu passado. Talvez fosse. A cidade é cheia de fantasmas que andam com CPF, que pagam Uber, que compram pão. E quando vi outra passageira lendo um livro com intensidade (Aforismos, de Oscar Wilde), aquela fome de quem está inteira em algo, senti inveja. Não por ela estar lendo, mas por estar inteira. Eu queria estar inteiro e organizado assim outra vez.
Ironicamente, voltei a ficar inteiro dentro de Macbeth. Dentro de uma tragédia shakespeariana cheia de sangue e fantasmas.
Voltar à cultura é reencontrar códigos invisíveis. Você reconhece um ator pelo olhar. Um violinista pela postura. Uma bailarina pelo pescoço, sim, pelo pescoço, quem vive esse mundo sabe. O corpo fala antes da boca. A alma também. E tem sido bom ouvir isso de novo. Tem sido bom voltar a entender essa língua antiga que eu achei que tinha esquecido.
Não sei ainda para onde tudo isso vai. Não tenho um plano final. Tenho trabalho. Tenho palco, ainda que nos bastidores, na sombra. Tenho Shakespeare me encarando todas as manhãs. Tenho esse blog. Tenho minha mãe caminhando comigo lá de Pernambuco. Tenho meu filho me puxando de volta pro chão quando entro demais na própria cabeça, quando flutuo longe demais.
E, acima de tudo, tenho essa promessa comigo mesmo. Esse pacto de sangue:
Vou escrever em qualquer terreno, seja chão firme ou areia movediça.
Porque a vida não espera estabilidade para acontecer.
Não tenho todas as respostas mas tenho frases andando na minha direção.
Enquanto elas continuarem me encontrando, eu sigo.
No teclado, no caderno, no metrô ou no caos: eu escrevo.
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Caramba! Sinto estar exatamente nesse momento, mas ainda não estive diante de algo que me fizesse finalmente voltar pra mim. Estive longe da escrita por “besteiras” da minha cabeça. E escrever significa o mesmo pra mim. Estou tratando essas besteiras em terapia e tentando voltar a brincar com as palavras aos pouquinhos. Esse post veio como um lembrete que deixarei salvo pra quando eu precisar reler. Tocou uma parte profunda e quase esquecida de mim, como se dissesse: “viu?! eu ainda estou aqui”, rs.