Um conto que eu bolei aqui…
O bar se chamava Evidências. Brega como o diabo. Isso já dizia tudo. Ninguém entra num lugar com esse nome por livre e espontânea lucidez. Também, a única coisa que está aberta depois que tudo fechou. Pós-festa, pós-tudo. Qualquer lugar desse planeta maldito tem um desses.
Odeio sair só, mas nessa noite eu quis.
Era o tipo de bar onde esperanças vinham morrer discretamente. Sem alarde, com música estridente ao fundo. O tilintar dos copos e as risadas irritantes de uma horda de jovens que estão começando uma vida pregressa agora.
Uma vontade da porra de dizer “Vai dar merda, viu, seus arrombados”.
Mas fico na minha. Não é a primeira vez que eu ocupava aquele mesmo lugar, ali, entre a desilusão e o banheiro. Mais fácil de vomitar ou mijar, se precisasse.
Dois dedos de Jim Beam com Coca. Um de autopiedade e outro de uma sombra na memória que nem consigo conceber.
Pois bem, foi quando ela entrou. E eu sempre observo determinada parte do rosto que me explode por dentro. E essa não era apenas um traço. Era um manifesto. Não vou dizer qual, mas garanto que era algo que sobreviveu a dinastias, tragédias gregas e ao tédio das sextas-feiras. De que parte do mundo vieram esses traços, me pergunto.
Se fosse para nomear, teria que ser algo entre poesia e faca. Silencioso, mas julgando tudo. Uma vírgula, que parecia sempre à beira de dizer algo importante, só que preferia o silêncio.
Mas por favor, me dê um desconto, eu estava bêbado e sentimental, e quando vi aquele rosto, tudo em mim saiu da rota.
Casaco de lã marrom e um olhar que te despia e te mandava vestir outra coisa: um mar cor de olho de gato ladrão. Lindíssimos. Sentou duas banquetas ao lado. Pediu alguma coisa que não me lembro.
Daí invento de puxar conversa (precisava?).
— Você tem cara de quem já perdeu tudo e continua apostando (Que merda é essa que você disse, animal?).
Bom, pelo menos sorriu. Porra, joguei na parede para ver se colava e colou. Mas, quando sorriu, entendi tudo errado. Como sempre.
Chamava-se … Ou pelo menos assim se apresentou. Falava como uma citação boa demais pra ser real.
Ria como quem já viu o fim do mundo e achou um evento de arrombar o cu do palhaço. Conversamos um monte de assuntos, rápidos, aleatórios, eloquentes.
Eu achei brilhante. Anotei mentalmente. E também mentalmente, achei que tinha pensado que escreveria sobre ela. Mas abri minha boca e falei de verdade (Cachaça da porra!). Respondeu: quem escreve sobre mim, não sobrevive.
Eita. Silêncio interno. Respirei fundo. Outros assuntos vieram. Fechamos o bar.
O garçom nos odiava em silêncio. Saímos rindo alto, agarrados à última cena antes dos créditos. Me levou até uma rua que eu juro que não existia no mapa. Disse que morava ali. Que era um lugar tranquilo. Que eu devia subir. E como um bom idiota com sede de epifania, subi.
O quarto estava aceso. Cheirava a algo bom. E depois que eu percebi o perigo: uma arma antiga em uma escrivaninha. Na parede, recortes de jornais. Todos com textos meus? Cacetes me mordam, minhas crônicas? Minhas palavras? Grifadas! Marcadas!
— Eu te conheço — sussurrei.
Ela acendeu um cigarro, se virou devagar, e disse:
— Claro que conhece. Você me inventou, seu otário!
Então apontou a arma. E atirou.
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Na “A Floresta Sombria” do O Liu Cixin, também tem uma estória de criador e criatura (literária), mas até onde estou lendo, o criador continua vivo.
Bela crônica (e morte aos criadores, rs)!
O Liu Cixin é incrível mesmo. Este aí que você citou tá na fila faz uns dois anos, mas chego lá. Valeu demais o comentário.