(Post inspirado num fragmento de texto do Arlon, no blog Ideias de Chirico, que apresentou o termo e o conceito da ação.)
Bem, vejam só. Ninguém mais beija telas de celular. Que tragédia moderna, não acham? Que perda irreparável para a humanidade. Realmente, as lágrimas me vêm aos olhos só de pensar (Mentira!).
Antigamente (este o advérbio aqui carrega rugas) havia algo quase sacro neste ato ridículo. Éramos todos uns idiotas completos. Uns idiotas apaixonados, beijando pequenas telas de 1,8 polegadas como se fossem a própria face de Deus. Ou melhor ainda: a face de alguém que nos amava. Ou que pelo menos fingia amar, há há há.
Havia ternura nos dedos, uma fé pueril no afeto à distância. E a foto? Uma só. Um presente digital entregue com suspense: carregando, baixando, abrindo, e por fim, um rosto granulado que parecia ter atravessado o deserto só para sorrir para você. Não se tratava de nitidez. Tratava-se de presença.
E nós, pobres tolos, encostávamos os lábios naquela superfície fria. Era lindo, realmente. Lindo de doer. Porque significava que ainda acreditávamos que o amor podia ser contido em algo secreto, numa carícia digital. Que inocentes, que deliciosamente estúpidos!
Eu não sabia, mas naquela época dourada do Siemens M65, minha atitude patética tinha até nome: Kisscrolling.
Aquele era um período em que o afeto cabia num movimento sem retorno, sem print, sem replay. Acontecia só uma vez e era suficiente. E se você ousar repetir o movimento num smartphone moderno, corre o risco de denunciar alguém sem querer. Ou sei lá, mandar uma reação inadequada num grupo da firma.
Porque hoje, tudo escorrega pelos dedos: as fotos, os afetos, as chances de felicidade. Tudo desliza numa velocidade cruel, como se o mundo tivesse pressa de nos decepcionar. Enfim, é o retrato do nosso tempo.
Algo tão simples já não é permitido sem custo. Trocamos o silêncio dos afetos pela lógica da funcionalidade. Desaprendemos a inutilidade sagrada do gesto gratuito. Beijar sem função, tocar sem comando, sentir sem contrapartida.
Tudo isso se tornou território dos velhos românticos. Ou coisa de romântico anacrônico. Que Deus me livre de ser moderno, então.
E que sorte a minha!
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