Recentemente, terminei a leitura de Romance Moderno: Uma Investigação Sobre Relacionamentos na Era Digital, de Aziz Ansari, livro que, apesar do tom quase casual e da prosa bem-humorada (como se um comediante decidisse brincar de antropólogo), consegue fazer algo raríssimo: traduzir com precisão esse mal-estar sofisticado que acomete os afetos contemporâneos.
Com gráficos, estudos de caso e mensagens de texto analisadas com o rigor de arqueólogos escavando ruínas sentimentais, a leitura revela um retrato absurdamente familiar: o amor, hoje, parece ter virado um aplicativo com UX caprichada, mas backend instável. Tudo é mais rápido, mais amplo, mais conectável e, paradoxalmente, mais solitário.
Enquanto lia, não consegui evitar aquele movimento involuntário de olhar para o histórico emocional, o meu e de pessoas que me são caras.
Pois bem, houve um tempo em que gostar era uma espécie de prática espiritual clandestina. Você fazia isso em silêncio, com zelo, acendendo velas a um deus não reconhecido pelas religiões oficiais. O problema é que o altar, muitas vezes, estava vazio.
O destino (caprichoso que é e que ao longo da história já serviu de desculpa tanto para tragédias quanto para casamentos em Vegas) tem um talento peculiar para nos colocar no lugar certo, mas no horário errado.
Circunstâncias é o que sobra quando as expectativas esbarram na realidade e decidem fingir que nada aconteceu.
E é assim que muitos de nós entramos em cenas que pareciam escritas por Wong Kar-Wai, mas terminavam como um episódio de alguma série cancelada após a primeira temporada. As pessoas insistem inconscientemente que há um “charme” peculiar em gostar de algo que não retribui. É quase como escrever cartas para um país que não existe mais: bonito, sim, mas fadado à falta de resposta.
Porque o que ninguém nos conta (ou talvez nos contem, mas escolhemos não ouvir) é que há uma diferença brutal entre amar e ser amado. A primeira ação exige coragem, a segunda, sorte. O problema é que está cada vez mais raro essas duas possibilidades coincidirem, ainda mais em um mundo onde todos nós fazemos parte de um robusto catálogo em aplicativos.
Curioso como o amor, esse negócio desmesurado que move óperas e playlists de madrugada, não tem nenhuma obrigação de ser gentil. Ele chega como um convite para dançar e, ao perceber que você aceitou, sai pela porta dos fundos. O resto fica por sua conta: os passos errados, os olhares enviesados, o constrangimento de perceber que dançava sozinho.
É claro que seguimos tentando. Mas a grande alternativa atual, essa tal de não sentir, nos parece ainda mais trágica.
O lado positivo é que, em algum momento, vem a clássico despertar incômodo e redentor: não é sobre conquistar, mas preservar a própria inteireza. A versão de si que não mendiga atenção, que não traduz silêncios, que não precisa se fazer pequena para caber em moldes alheios.
Neste ponto, o amor se transmuta. Deixa de ser um gesto em direção ao outro e passa a ser um gesto de volta. A bússola emocional que sempre apontou para fora, de repente, encontra o norte em si mesma.
A raiva, antes dirigida às ausências e aos retornos mornos, se torna aliada. Ela ergue a voz, deixa de fazer sussurros fracos e devolve forma ao que andava desfigurado pela esperança mal correspondida.
Essa virada de chave não acontece com fogos de artifício ou trilha sonora. Acontece devagar, entre pequenas recusas ao papel de figurante na própria história. É um processo quase invisível, como uma poça de água secando ao sol. Ninguém nota, até que já não há mais água, nem reflexo, nem apego.
E quando, enfim, a gente deixa de procurar nos outros uma validação que jamais virá, o mundo se reorganiza. As circunstâncias não mudaram, mas algo dentro de nós passou a exigir menos aplausos.
Como dizia uma letra de uma antiga banda de pop-rock da Bahia, “Soberano, o sentido da sua vida está no espelho, e não em frente ao portão…”
Não estou dizendo para você nutrir um coração peludo e execrar o amor. Muito pelo contrário, seja amoroso/a. Seja doce, seja gentil, mas ponha um pouco de raiva nisso. A famosa balinha de morango com recheio de vespa dentro.
Porque somente com amor e fúria você se ergue das merdas cinzas de expectativas alheias.
Somente com amor e fúria você chega à verdade.
Somente com amor e fúria você percebe que tudo está ao seu alcance para incendiar o mundo.
Amor e fúria, é tudo que lhe desejo.
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