Cayce Pollard não é só uma personagem de ficção. Ela é, para mim, uma espécie de reflexo com interferência, a maneira como observo o mundo, as reações físicas que tenho diante do excesso de estímulos.
Criada por William Gibson em Pattern Recognition, Cayce é uma “coolhunter” que transforma sensações em trabalho. Seu corpo reage a logotipos e marcas, uma espécie de alergia ao falso, ao fabricado, ao que força pertencimento. Ela não veste nada com branding. É minimalista até no olhar. E talvez o mais fascinante: tem uma sensibilidade radical à cultura, não no sentido acadêmico, mas no visceral.
Quando li sobre sua alergia ao marketing, senti um tipo de conforto desconcertante. Porque, apesar de trabalhar com comunicação, também experimento esse incômodo estranho diante de telas, fontes artificiais, layouts barulhentos demais. Gosto da tecnologia, mas às vezes ela me esgota. Gosto de observar tendências, mas também fujo delas. Gosto de estar por dentro, mas me pego desejando sumir.
Cayce vive nesse limiar. E eu também. Ela não tenta moldar o mundo, tenta decifrá-lo antes que ele a destrua. É é esse o motivo que me identifico tanto: há algo bem solitário, mas extremamente lúcido, em observar as coisas com mais intensidade do que elas pedem.
Ela me ensinou que não é estranho ser sensível ao ruído, é só uma outra forma de ler o tempo em que vivemos. Como ela, sou um radar. Um sismógrafo emocional calibrado para o invisível. O mundo treme e eu espirro. Códigos demais me causam urticária.
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Ando pelas ruas desviando de sinais, pois não quero ser capturada por significados falsificados. Atualmente, tudo grita para ser notado. Mas só o que sussurra me interessa.
Sou treinado (ou amaldiçoado?) para notar o que não está ali. Vejo uma dobra na calça de um entregador e penso: talvez isso seja o embrião de uma nova tendência. Não por ironia, mas porque o mundo verdadeiro escorrega. Ele não posa. Ele escapa.
Tenho olhos treinados para ver o que ainda não virou linguagem. Uma sombra de logo na parede,
um botão fora do lugar, uma gíria que ainda não foi domesticada pelo TikTok.
Gente que se veste como quem não tem tempo pra pensar em moda. Gente que cria estilo sem saber, por urgência, por instinto, por azar.
Já vi o futuro nascer de uma sacola de feira. De um tênis colado com silver tape. De um adesivo rasgado na traseira de um ônibus. E pensei: isso ainda vai ser conceito de campanha em alguma sala cheia de gente com MacBook.
O submundo me entrega pistas. Rastros deixados por quem não tem tempo de pensar em estética porque está ocupado sobrevivendo. Mas mesmo na pressa, mesmo no erro: há estilo.
A estética verdadeira é um acidente não tratado. O caos tem direção, embora não saiba.
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Eu não prevejo o futuro. Eu o pressinto. Sou treinado para notar o que não está ali. Uma ausência pode brilhar mais do que qualquer presença. No amor (especialmente o digital) isso é regra, não exceção.
Recentemente, estava trabalhando com o tema. Pessoas que se apaixonam por avatares. Por bios enigmáticas. Por frases entre aspas sem autoria. É até divertido ver como é possível decodificar silêncios. Entende isso?
Acordam de madrugada se deparam com um “visto por último às 02:14” e interpretam como uma espécie de pista. Como se o horário em que alguém dorme revelasse tudo o que sente, ou tudo o que tenta evitar.
Ser Cayce Pollard nestes tempos que seguem é saber que até o vazio tem textura. E o maior ruído vem de quem nunca disse nada.
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Começa assim: você acorda e já sente que o mundo está barulhento demais. Mesmo sem um som. O ruído vem dos alertas invisíveis, os e-mails que ainda não chegaram, das mensagens que talvez nunca venham, dos olhares que não aconteceram no metrô, mas você notou mesmo assim.
O trabalho segue. As entregas, os cronogramas, as deadlines que não são mortas apenas no nome.
Você escreve, edita, planeja. Faz apresentações que parecem tentar salvar o mundo com um novo tom de azul. E ninguém nota que você está quase dissolvendo por dentro. Ou talvez notem, mas não saibam como agir, então sorriem, como se sorrir fosse salvaguarda universal para ausências emocionais.
Você também está em modo avião. Ligado, mas indisponível. Vivo, mas sem aterrissar em lugar algum.
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É por isso que seu corpo reage mal a marcas, logotipos, estímulos visuais. Tudo parece invasão. Um pedido de atenção que você não consegue mais atender. Você quer silêncio, mas também não quer solidão. Quer contato, mas sem promessas. Quer amor, mas sem a bagunça das notificações.
E a cidade continua girando. Pessoas se apaixonam, projetos são aprovados, cafés são tomados com a falsa solenidade de uma reunião decisiva.
Tudo que resta é isso: observar, anotar, sentir. Fazer do incômodo uma forma de mapa. E continuar traduzindo a realidade, mesmo que ele insista em falar uma língua que você desaprendeu.
Com sorte, posso acertar em cheio um pouco antes que o mercado chegue.
O que há depois de um grande case?
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Li há muitos anos Pattern Rec., mas a personagem é realmente inesquecível, e que livro bom!!
Minha nossa, eu cultuo esse livro desde 2005. Não tenho identificação igual com nenhum outro livro/personagem. Gibson quando foca no agora é mais sensacional do que quando aponta para o futuro. Tanto que, apesar de alguns gadgets já ultrapassados da época, o livro envelheceu muito bem. Não ficou datado.
Preciso ler “Spook Country” e “Zero History”, os outros dois da trilogia. Tinha lido tudo até Pattern. Parei de acompanhar Gibson aí, mas não por algum motivo, só a vida mesmo.
São muito interessantes, uma ficção científica pé no chão, centrada no possível, mas igualmente charmosos. Discute temas bem atuais como realidade aumentada, urbanidade e arte eletrônica. Tudo o que ele faz é bom, mas essa trilogia é o ápice da maturidade dele.
Boa, valeu!